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Domingo, Julho 12, 2009

No começo da década de 80 nos mudamos para o Caminho das Árvores. Era um bairro que já nascia nobre pelas mãos da Odebrecht. Foi destinado, inclusive, a ser o local da morada do famoso clã de construtores, como permanece até hoje.

O Caminho das Árvores surgiu de uma permuta entre a construtora e o Jockey Clube. O acerto foi vazado nos seguintes termos: a Odebrecht ficava com o grande terreno para criação do seu loteamento e em troca dava outra área em Lauro de Freitas para o clube, bancando a construção da sede.

Meu pai foi um entusiasta do projeto, ou melhor, dos projetos. Comprou o terreno onde foi edificada a nossa casa e, de quebra, ainda se associou ao Jockey Clube.

O primeiro foi um negócio estupendo, pois nesses anos todos, nossa casa só se valorizou. Já o segundo se mostrou uma grande roubada.

Em todo o país os Jockeys Clubes (é esse o plural?) são instituições elitistas, destinados ao crème de la crème. Só não na Bahia que como diria minha bisavó Etelvina é a Terra do Bom Começo e não a Terra do Bonfim, já que tudo principia bem e acaba mal.

Mas nos dois primeiros anos mais ou menos, o clube recém-inaugurado era um lugar aprazível e chegamos a ir algumas vezes.

Eu era bem pequena, ainda usava aquelas bóias infláveis que se prendem aos braços (com a cabeça do Mickey), mas guardo algumas imagens nítidas do lugar: um escorregador gigante (que nunca tive o tamanho certo para poder descer), a piscina infantil redonda, muitas arvores frondosas e o calçamento formando ferraduras.

A distância Lauro de Freitas – Salvador naquela época parecia uma viagem, o que tornava tudo ainda mais interessante para as crianças. Quando o passeio era anunciado, corríamos para arrumar as coisas.

Vestia a parte de baixo do meu biquini (na infância era adepta do topless), pegava meus brinquedos, a bóia, minha mãe levava água para bebermos no caminho e íamos contando os postos de gasolina da Av. Paralela: 1... 2... 3...

Quando dava certo era uma maravilha! Um programa realmente sensacional. Só que nem sempre era assim. Algumas vezes juntávamos todos os apetrechos, vestíamos a roupa de banho, sentávamos no carro e... Nada!

Meu pai durante os dias úteis usava carro oficial, então o seu automóvel mesmo só era utilizado nos finais de semana. Não foi que o danado de birra desenvolveu vida própria (não lembro se era o Corcel II, talvez meus irmãos mais velhos saibam melhor)?

Assim, arrumávamos as coisas no bagageiro, entrávamos no carro voluntarioso e o filho da mãe nem se abalava, não dava partida e a gente ouvia aquele som rouco e abafado do motor que significava o fim da diversão (bendita seja a criação da injeção eletrônica).

O Jockey ficou uma lembrança enevoada, mas não o Caminho das Árvores. Esse ainda é bem presente. Ainda que no começo desse ano tenhamos saímos oficialmente da velha (e linda) casa, continuamos fieis ao bairro.

Hoje meus pais, meus irmãos e eu somos proprietários de 04 apartamentos em prédios quase vizinhos entre si (ficam todos na mesma rua), a poucos metros da antiga moradia.

Mas tenho que confessar que na minha vida tem momentos em que volto a me sentir como aquela menina no banco de trás do veículo, cheia de bugigangas e sonhos, tudo aparentemente certo e organizado. Só que o carro, contrariando todas as expectativas, simplesmente não anda...


postado por Manuella às 8:40 PM
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