Sempre costumo dizer que minha nacionalidade é brasileira e que minha religião é a Bahia. É por isso que o meu sentimento perante o meu Estado (de espírito) é de plena devoção.
Todo dia rezo pelo Pelô e “andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”, já dizia o ex-Ministro. Mas o culto máximo dessa crença acontece quase sempre em fevereiro, quando a grande procissão vai ganhando as ruas da cidade.
O meu batizado aconteceu quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Nessa época só existia o percurso do Campo Grande e camarote era só o Oficial do Governador. Os pontos comerciais e escritórios ao longo do trajeto dos trios iam fazendo as vezes de mirante da folia.
Até hoje não sei como se deu o supremo milagre, mas meu pai resolveu que íamos todos ver a festa do alto do emblemático Edifício Sulacap (logo o patriarca que nunca foi afeito às festas momescas). Só sei que saímos cedinho para o escritório de um amigo dele e ficamos até o dia seguinte (para garantir que a chegada e a saída seriam em segurança e livres da multidão).
Essa foi a primeira vez que eu me deparei com essa festa insana chamada Carnaval e foi paixão à primeira vista. Para aqueles olhos de criança, tudo era colorido demais, grande demais, lindo demais.
Depois desse ano, passei um tempo curtindo esse amor à distância, quase platônico. Ia aos bailinhos do Clube Baiano de Tênis, assistia os desfiles pela TV e uma vez vi de longe as luzes da festa do outro lado do mar, na Ilha de Itaparica.
Só quando completei 15 anos veio o meu reencontro definitivo com as ruas festivas da cidade do São Salvador, com direito a Bloco e o escambau. Era um tempo em que para se comprar a mortalha (o EVA ainda não tinha inventado o Abadá) a gente tinha que se associar ao Bloco, fazendo um cadastro com foto e tudo. Para minha felicidade, ser estudante do Colégio São Paulo era quase a garantia absoluta da aprovação no vestibular carnavalesco, mas vez ou outra a gente escutava histórias de gente que, supremo vexame, tinha tido a proposta rejeitada.
Mas como nunca fui de planejar nada, deixava mesmo a escolha quase sempre para última hora e aí era um verdadeiro drama... Não havia essas feiras do rolo no aeroclube e no Jardim Brasil e muito menos a internet. Então eu tinha de acordar cedo, ir para porta de casa para receber o jornal saído do forno, abrir os classificados, correr para o telefone e torcer para ser a primeira a ligar. “Esse bloco tal já foi vendido?” Bingo! O bilhete da felicidade estava garantido.
A gente saía numa euforia danada para buscar aquele pedaço disforme de tecido tamanho GG e o que fazer? Tesoura neles! Eu e minhas amigas (com o apoio da minha mama) fazíamos parte do seleto grupo das pioneiras na reforma de abadas e nossos modelos eram sempre os mais bonitos. A mulherada na fila do banheiro pirava com a gente. “Nossa, onde vocês fizeram isso?”. Se tivéssemos montado uma empresa, hoje estaríamos com nossos dólares nas Ilhas Cayman...
E olha que nessa época cortar o abadá era considerado um pecado mortal, sob o risco de expulsão do paraíso. Então era todo um processo... A gente tinha de imaginar o modelo de forma tal que ficasse garantido que não seria cortado o símbolo de nenhum patrocinador. Teve um ano, impagável, que saímos com o então Jeremias (hoje Jammil) e graças às nossas tesouradas ficou bem no meio da blusa o logotipo da Maggi. Resultado, para nossa desonra, fomos a avenida inteira ouvindo piadinhas do tipo: “Lá vai o bando da Galinha Azul”.
São tantas lembranças... A turma bonita do beco do Caeasar, a paz de Ondina antes das mega-estruturas dos camarotes, o banheiro na base do suborno... Aliás, teve uma amiga tonta da gente, que na vez dela passar a graninha para o porteiro do Hotel, errou e entregou uma nota de R$50,00 (uma fortuna na época de recém-criado Real). Foi o xixi mais caro de nossas vidas.
Confesso que há alguns anos me rendi à comodidade dos camarotes. Se Dado Dolabella fosse ao meu programa ia sacudir a sua machadinha esbravejando que eu traí o movimento...
Não é verdade. Ainda continuo apaixonada pelo carnaval de rua da minha Boa Terra, só que agora é um amor maduro, sem os arroubos da juventude.
Foi por isso que não pulei esse ano em todos os dias da folia. Só fiz algumas passagens meteóricas nos Camarotes do Harém e Salvador 2009, mas foi o bastante para reafirmar o meu amor pelo carnaval de Salvador, com direito a momentos de alegria genuína e boas histórias, daquelas que a gente sempre vai lembrar com um sorriso no rosto.
Como disse lá no começo, minha religião é a Bahia. É por isso que minha profissão de fé é o carnaval, sigo o Sacerdote Durvalino e Sua Santidade Bell e meu hino de louvor começa assim: “Ahhhhhhhhhhh imagina só que loucura essa mistura...”
postado por Manuella às 8:00 PM
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Eu sou do tipo que nunca poderia ter cursado medicina. Apesar de ter um DNA versado nas artes de Hipócrates, genealogia que inclui quase um avô (que teve de deixar a faculdade quando meu bisavô morreu, para assumir os negócios da família), tios, irmã e agora meu primo (parabéns Nandão, pela aprovação), euzinha aqui nunca fui afeita às vísceras e que tais.
Certa feita, ainda criança, fuçava, com meu irmão, na casa da minha Vó Nita (já alçada às nuvens), o armário de meu Tio Du, quando nos deparamos com um osso.
Nesse momento, vale um parêntese. Tio Du não é um tio qualquer desses que aperta a bochecha dos sobrinhos com força. Não mesmo. Quis a vida (que levou meus outros dois tios também para os degraus das nuvens, ainda antes de eu nascer) que ele assumisse desde cedo o encargo de ser nosso único tio. Papel que desempenhou com maestria, diga-se de passagem.
Temporão em relação a minha mãe, ainda era um acadêmico quando nós, no playground da infância, bisbilhotávamos escondidos o seu armário. E o guarda-roupa dele era um bom parque de diversões. Chiclete de pimenta? Tem sim, senhor... Caneta que dá choque? Tem sim, senhor? Um fêmur dos grandes? Cruuuuuuuuuuuzes... Pois bem, vamos retomar a história...
Lá estava aquele osso bem na minha frente. Dei um grito e meu irmão mais velho, todo metido a besta, do alto dos do seus 01 ano e 04 meses de diferença, pegou o danado entres as mãos, enquanto eu saía correndo... Ele colocou o osso no armário de volta, foi atrás de mim e com a mão espalmada pegou em minhas costas: “trisquei em você com a mão (suja) de osso”...
Claro que isso rendeu umas boas horas de choro. Nem sei como teria sido se ele tivesse encostado o próprio fragmento de esqueleto (pior que o do He-man) nas minhas costas, mas isso já serviu de sinal bem claro de que não havia em mim traço de vocação para a Medicina.
Aliás, como de médico e louco todo mundo tem um pouco. Não sou 100% desprovida de talento. Leio uma bula como ninguém (no banheiro então, quando acho uma, quebra um galho...). Vejo posologia, interações medicamentosas...Se tiver surtido efeito, sem (d)efeitos colaterais, repasso na hora a dica para amigos (pode fazer sua campanha pessoal contra auto-medicação).
Mas médica mesmo, com direito a estudo de anatomia, bioquímica e homenagem ao cadáver desconhecido (cruuuuuuuuuuuuzes parte II) eu nunca seria. E quer saber o motivo?
Nojo de sangue e demais secreções. Meio óbvio demais, não? Mas não é só isso. Os proctologistas hão de convir: o buraco (ui) é mesmo mais em baixo.
Meu problema maior, caso tivesse optado pelas ciências da saúde, seria administrar a minha hipocondria imoderada. Não posso ver uma discrição em detalhes sobre uma doença que já começo a suspeitar seriamente que carrego o mal dentro de mim.
Agora mesmo acabei de ler sobre a pesquisa de uma neurologista de Harvard cujo tema era a hipergrafia. Vamos lá:
“Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da ‘incurável doença da escrita’. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem ‘estancar’ o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias ‘editadas’ pelos lobos temporais”.
Bem, vocês acabaram de ler também, né? Então me digam, será que tenho cura?
postado por Manuella às 3:28 PM
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