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Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

Sempre costumo dizer que minha nacionalidade é brasileira e que minha religião é a Bahia. É por isso que o meu sentimento perante o meu Estado (de espírito) é de plena devoção.
Todo dia rezo pelo Pelô e “andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”, já dizia o ex-Ministro. Mas o culto máximo dessa crença acontece quase sempre em fevereiro, quando a grande procissão vai ganhando as ruas da cidade.
O meu batizado aconteceu quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Nessa época só existia o percurso do Campo Grande e camarote era só o Oficial do Governador. Os pontos comerciais e escritórios ao longo do trajeto dos trios iam fazendo as vezes de mirante da folia.
Até hoje não sei como se deu o supremo milagre, mas meu pai resolveu que íamos todos ver a festa do alto do emblemático Edifício Sulacap (logo o patriarca que nunca foi afeito às festas momescas). Só sei que saímos cedinho para o escritório de um amigo dele e ficamos até o dia seguinte (para garantir que a chegada e a saída seriam em segurança e livres da multidão).
Essa foi a primeira vez que eu me deparei com essa festa insana chamada Carnaval e foi paixão à primeira vista. Para aqueles olhos de criança, tudo era colorido demais, grande demais, lindo demais.
Depois desse ano, passei um tempo curtindo esse amor à distância, quase platônico. Ia aos bailinhos do Clube Baiano de Tênis, assistia os desfiles pela TV e uma vez vi de longe as luzes da festa do outro lado do mar, na Ilha de Itaparica.
Só quando completei 15 anos veio o meu reencontro definitivo com as ruas festivas da cidade do São Salvador, com direito a Bloco e o escambau. Era um tempo em que para se comprar a mortalha (o EVA ainda não tinha inventado o Abadá) a gente tinha que se associar ao Bloco, fazendo um cadastro com foto e tudo. Para minha felicidade, ser estudante do Colégio São Paulo era quase a garantia absoluta da aprovação no vestibular carnavalesco, mas vez ou outra a gente escutava histórias de gente que, supremo vexame, tinha tido a proposta rejeitada.
Mas como nunca fui de planejar nada, deixava mesmo a escolha quase sempre para última hora e aí era um verdadeiro drama... Não havia essas feiras do rolo no aeroclube e no Jardim Brasil e muito menos a internet. Então eu tinha de acordar cedo, ir para porta de casa para receber o jornal saído do forno, abrir os classificados, correr para o telefone e torcer para ser a primeira a ligar. “Esse bloco tal já foi vendido?” Bingo! O bilhete da felicidade estava garantido.
A gente saía numa euforia danada para buscar aquele pedaço disforme de tecido tamanho GG e o que fazer? Tesoura neles! Eu e minhas amigas (com o apoio da minha mama) fazíamos parte do seleto grupo das pioneiras na reforma de abadas e nossos modelos eram sempre os mais bonitos. A mulherada na fila do banheiro pirava com a gente. “Nossa, onde vocês fizeram isso?”. Se tivéssemos montado uma empresa, hoje estaríamos com nossos dólares nas Ilhas Cayman...
E olha que nessa época cortar o abadá era considerado um pecado mortal, sob o risco de expulsão do paraíso. Então era todo um processo... A gente tinha de imaginar o modelo de forma tal que ficasse garantido que não seria cortado o símbolo de nenhum patrocinador. Teve um ano, impagável, que saímos com o então Jeremias (hoje Jammil) e graças às nossas tesouradas ficou bem no meio da blusa o logotipo da Maggi. Resultado, para nossa desonra, fomos a avenida inteira ouvindo piadinhas do tipo: “Lá vai o bando da Galinha Azul”.
São tantas lembranças... A turma bonita do beco do Caeasar, a paz de Ondina antes das mega-estruturas dos camarotes, o banheiro na base do suborno... Aliás, teve uma amiga tonta da gente, que na vez dela passar a graninha para o porteiro do Hotel, errou e entregou uma nota de R$50,00 (uma fortuna na época de recém-criado Real). Foi o xixi mais caro de nossas vidas.
Confesso que há alguns anos me rendi à comodidade dos camarotes. Se Dado Dolabella fosse ao meu programa ia sacudir a sua machadinha esbravejando que eu traí o movimento...
Não é verdade. Ainda continuo apaixonada pelo carnaval de rua da minha Boa Terra, só que agora é um amor maduro, sem os arroubos da juventude.
Foi por isso que não pulei esse ano em todos os dias da folia. Só fiz algumas passagens meteóricas nos Camarotes do Harém e Salvador 2009, mas foi o bastante para reafirmar o meu amor pelo carnaval de Salvador, com direito a momentos de alegria genuína e boas histórias, daquelas que a gente sempre vai lembrar com um sorriso no rosto.
Como disse lá no começo, minha religião é a Bahia. É por isso que minha profissão de fé é o carnaval, sigo o Sacerdote Durvalino e Sua Santidade Bell e meu hino de louvor começa assim: “Ahhhhhhhhhhh imagina só que loucura essa mistura...”
postado por Manuella às 8:00 PM
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Domingo, Fevereiro 01, 2009

Eu sou do tipo que nunca poderia ter cursado medicina. Apesar de ter um DNA versado nas artes de Hipócrates, genealogia que inclui quase um avô (que teve de deixar a faculdade quando meu bisavô morreu, para assumir os negócios da família), tios, irmã e agora meu primo (parabéns Nandão, pela aprovação), euzinha aqui nunca fui afeita às vísceras e que tais.

Certa feita, ainda criança, fuçava, com meu irmão, na casa da minha Vó Nita (já alçada às nuvens), o armário de meu Tio Du, quando nos deparamos com um osso.

Nesse momento, vale um parêntese. Tio Du não é um tio qualquer desses que aperta a bochecha dos sobrinhos com força. Não mesmo. Quis a vida (que levou meus outros dois tios também para os degraus das nuvens, ainda antes de eu nascer) que ele assumisse desde cedo o encargo de ser nosso único tio. Papel que desempenhou com maestria, diga-se de passagem.

Temporão em relação a minha mãe, ainda era um acadêmico quando nós, no playground da infância, bisbilhotávamos escondidos o seu armário. E o guarda-roupa dele era um bom parque de diversões. Chiclete de pimenta? Tem sim, senhor... Caneta que dá choque? Tem sim, senhor? Um fêmur dos grandes? Cruuuuuuuuuuuzes... Pois bem, vamos retomar a história...

Lá estava aquele osso bem na minha frente. Dei um grito e meu irmão mais velho, todo metido a besta, do alto dos do seus 01 ano e 04 meses de diferença, pegou o danado entres as mãos, enquanto eu saía correndo... Ele colocou o osso no armário de volta, foi atrás de mim e com a mão espalmada pegou em minhas costas: “trisquei em você com a mão (suja) de osso”...

Claro que isso rendeu umas boas horas de choro. Nem sei como teria sido se ele tivesse encostado o próprio fragmento de esqueleto (pior que o do He-man) nas minhas costas, mas isso já serviu de sinal bem claro de que não havia em mim traço de vocação para a Medicina.

Aliás, como de médico e louco todo mundo tem um pouco. Não sou 100% desprovida de talento. Leio uma bula como ninguém (no banheiro então, quando acho uma, quebra um galho...). Vejo posologia, interações medicamentosas...Se tiver surtido efeito, sem (d)efeitos colaterais, repasso na hora a dica para amigos (pode fazer sua campanha pessoal contra auto-medicação).

Mas médica mesmo, com direito a estudo de anatomia, bioquímica e homenagem ao cadáver desconhecido (cruuuuuuuuuuuuzes parte II) eu nunca seria. E quer saber o motivo?

Nojo de sangue e demais secreções. Meio óbvio demais, não? Mas não é só isso. Os proctologistas hão de convir: o buraco (ui) é mesmo mais em baixo.

Meu problema maior, caso tivesse optado pelas ciências da saúde, seria administrar a minha hipocondria imoderada. Não posso ver uma discrição em detalhes sobre uma doença que já começo a suspeitar seriamente que carrego o mal dentro de mim.

Agora mesmo acabei de ler sobre a pesquisa de uma neurologista de Harvard cujo tema era a hipergrafia. Vamos lá:

“Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da ‘incurável doença da escrita’. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem ‘estancar’ o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias ‘editadas’ pelos lobos temporais”.

Bem, vocês acabaram de ler também, né? Então me digam, será que tenho cura?

postado por Manuella às 3:28 PM
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