Há alguns dias tenho me dedicado à arqueologia digital. É que tempos atrás fui numa vidente/cartomante em São Paulo. Era uma velhinha de seus 90 anos, mas muito lúcida. Fui levando o meu MP3 Player e perguntei se podia gravar a consulta. Ela aquiesceu e fiquei com meu futuro capturado num arquivo *.wav. Não lembro de muita coisa, gostaria de ver se algo do que ela disse realmente aconteceu... Mas a curiosidade maior está em saber o que ainda está por vir. A voz trêmula da velhinha nesse arquivo sonoro equivale às minhas centúrias, meu livro perdido de Nostradamus.
Como sou muito desorganizada, há diversos CDs com backups dos muitos computadores que tive (entre Salvador - São Paulo – Salvador), espalhados em meio a outros tantos CDs de música, programas... Todos, como não poderia deixar de ser, sem a devida inscrição na frente dizendo sobre o que se trata. Olho para pilhas de discos prateados com o rótulo da Sony e nada mais.
Aí começa o trabalho dessa Cyber Indiana Jones de meia tigela. Abro o drive do computador, coloco o CD, isolo o meu sítio arqueológico e começo a vasculhar os arquivos. Vou pondo do meu lado aqueles que já vi e vou inserindo os outros. Logo faço uma confusão, vistos e não vistos se misturam e recomeço a trabalheira.
Em meio a essa busca insana, vou achando arquivos, fotos, trechos de e-mails e conversas que me remetem a momentos que vivi. É como se Amelie Poulain me entregasse a velha caixa com reminiscências do meu passado.
Sabe quando a gente sonha que odeia alguém e no outro dia acorda morrendo de raiva? Logo passa, mas enquanto duram aqueles parcos minutos, os sentimentos parecem quase tangíveis. É mais ou menos isso que acontece com a minha pesquisa digital. Enquanto vou fuçando pastas e arquivos, simpatias e antipatias vão sendo restauradas.
Vou me deparando com imagens que me remetem a lugares, fatos... Num vídeo desajeitado, lá estou eu ensaiando uma poesia no meu velho AP de Sampa. Olho a disposição das taças num cantinho da tela e por milagre as lembranças vão se arrumando, num enorme lego mental.
O mais bizarro é encontrar históricos de conversas. Já deve ter uns dois ou três anos que deixei de salvá-los nos meus computadores. Acho que o próprio nome já diz: comunicador instantâneo. É pra ser consumido na hora sob o risco de causar indigestão.
Um bate-papo que a gente tem num barzinho não fica registrado para posteridade, não é mesmo? E tomara que continue assim e no futuro não descubram uma forma de capturar as ondas sonoras que viajam eternamente por aí. É por isso que os CD em que achei esses históricos, tratei de destruir sem dó nem piedade. Não quero minhas conversas casuais salvas em arquivos binários.
Quanto à gravação da cartomante, acho que se perdeu para sempre. Tais são as coisas do mundo: revirei documentos digitais em busca do meu futuro, acabei reencontrando o meu passado.
postado por Manuella às 1:03 AM
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Estava em meio a uma aula de Processo Civil. O professor falava sobre algo que julgava muito importante (que já deve ter caído em desuso por alguma reforma legislativa) e eu estava a quilômetros dali. Havia acordado nesse dia com um texto me chamando em minha cabeça. Entre a voz monocórdia do professor e o grito das letras, preferi ficar com o segundo. Parei de transcrever a matéria, virei a página do caderno e comecei a dar vazão às idéias.
Nasceu assim uma prosa poética chamada “Toda Poesia”. Cada parágrafo veio pronto, redondo, formatado. Reli o que tinha escrito e vi que tinha criado algo realmente de qualidade. Cheguei em casa, li para algumas pessoas e obtive a aprovação de todos.
Sim, eram ouvidos parciais, estava diante da minha família, mesmo assim pude notar que estavam verdadeiramente admirados, não era mero confete.
Sentei no meu computador e entrei no site do Jornal A Tarde (jornal de maior circulação no Norte/Nordeste). Procurei o e-mail do editor do “Caderno Dois” e com um pouco de ousadia mandei o meu texto com a seguinte observação: trata-se de um trabalho de minha autoria e desde já autorizo a publicação.
Passados alguns dias, lá estava o meu texto impresso no jornal. Nessa época o vespertino trazia uma coluna chamada “Ultraleve”, destinada às crônicas. Grandes intelectuais baianos dividiam o espaço (José Augusto Bebert de Castro, Mirian Fraga, Oleone Coelho Fontes) e de repente eram as minhas palavras que saltavam do jornal. Enviei mais um texto e outra vez publicaram. Devia ter insistido e mandado outros, certamente publicariam. Mas decidi encerrar prematuramente a minha carreira de cronista.
Passados alguns anos, outra vez a faísca da ousadia literária provocou combustão em meu corpo. Ousei inscrever uma poesia minha num concurso que envolvia poesias e contos sobre a minha Bahia, sob o tema: “O que é que a Bahia tem?”. Saiu o resultado oficial e pra minha felicidade obtive o 1º lugar. A minha poesia fará parte de um livro editado com os melhores trabalhos do concurso. A coletânea será lançada durante a Bienal Internacional do Livro da Bahia e lá receberei a premiação.
Escrever é um ato extremamente solitário. Sou eu com minhas idéias, nada mais. Entretanto, não se trata de uma escolha: escrever ou não escrever. Inexiste opção. Sinto uma necessidade física de traduzir em letras os meus pensamentos. A minha escolha reside tão somente em publicar ou não publicar os meus escritos. Decidi torná-los públicos. Desde então venho buscando veículos para dar acesso às coisas que escrevo para outras pessoas.
Finalmente estarei com as minhas idéias meio desmioladas no miolo de um livro. É muito gratificante receber algum retorno, por meio de premiações e sobretudo através das palavras das pessoas que generosamente param para ler o que escrevo. E por falar em parar, quero dizer que eu não paro por aqui. Dou a minha PALAVRA.

No começo do ano eu ouvi o boato: dessa vez a turnê da Madonna engloba o Brasil. Corri para a Internet e não vinha a confirmação... Até que finalmente soube que era mesmo verdade. Se em 1994 eu era só uma aluna do Colégio São Paulo babando na TV vendo o The Girlie Show, agora teria autonomia de estar presente no show da Material Girl.
Vencida a etapa da luta pelo convite, foi só aguardar a data, arrumar as malas e zarpar para Sampa. Minha boa e velha amiga Monique me aguardava com a sua hospitalidade que, desculpa aí Madonna, deixa qualquer Grand Hyatt pra trás (valeu mais uma vez, my friend).
Cedo partimos para o Morumbi. Eu disse cedo?? Uma multidão já havia sido mais ligeira. A fila dava a vooooooooooooooooooolta no Estádio. Ainda bem que tinha a Santa Skol para ajudar. Quando conseguimos entrar, sentamos e aí veio o tédio. Ainda era meio da tarde e teríamos que esperar até as 22h para o espetáculo começar. Então veio a idéia: vamos fazer uma ôla!! Eu e Monique demos a partida e... O estádio respondeu!!! Não podíamos acreditar. Depois, quando saímos pra comprar uma cerveja, uma menina nos avistou e falou: Vocês que começaram a ola, né? Tínhamos até testemunha ocular.
Nesse momento vimos uma clareira aberta no canto perto do palco. Será que de lá dá para ver bem? Por que não tem outras pessoas? Como fazemos para entrar nesse espaço? Vencidas as dúvidas nos instalamos nesse cantinho especial.
Em pouco tempo éramos uma comunidade. Destaque para meu novo amigo Dan. Aliás, novo não, porque somos "novos amigos de infância". Brincamos muito de Barbie, Suzie, Ken. Principalmente de Ken alemão...Bee, abafa o caso!!!
No outro dia não fiz nada. A viagem foi muito corrida e nem deu para ver os meus amigos queridos, infelizmente. O retorno para a boa terra foi tumultuado pela crise aérea by GOL (contra).
Então chegou o Natal. Eu estava totalmente no clima de MamãNoella. As minhas amigas ligaram cedo marcando o pós-festa na Lotus. Estava pintando as unhas no salão de beleza, já me preparando para a Noite Feliz, quando minha irmã ligou dizendo que minha avó estava passando mal. Até então não sabia a gravidade da coisa. Veio outro telefonema, dessa vez a minha mãe me mandando ir para casa. Atrás deu para ouvir a voz da minha irmã que é médica: “ela tem que saber a gravidade do caso, com esse quadro, provavelmente minha avó vai a óbito hoje”. Perdi o chão.
Isso não podia estar acontecendo. Em pleno dia 24.12 meu pai, filho único, que sempre foi louco pelo Natal estava na iminência de perder a mãe. Peguei um táxi (não tinha perna para dirigir) e fui para o hospital.
A cena era de terror, cortava o coração ver o meu pai chorando. Ficamos todos sentados, chocados, aguardando notícias. Acabado o horário de visita na UTI, voltamos para casa e ensaiamos uma ceia, mas não havia mais clima. Falei para um amigo que não acreditaria mais em Deus se o pior acontecesse. Não aconteceu. Fui ouvida pela turma lá de cima e a velhinha reagiu.
Com essa situação, desisti de qualquer viagem de ano novo. Comprei em cima da bucha o ingresso para o reveillon da Praia do Forte. Chamei duas amigas e me mandei para o litoral norte. Foi uma delícia. Dancei pra me acabar, conheci gente nova, dourei no sol... Apesar dos pesares, o ano novo começou em alto astral. Pena que tive de voltar correndo no sábado porque o quadro da minha Vó Neusa se agravou. Não sei como vai acabar essa história. Agradeço cada dia em que o telefone não toca ou que meu irmão não chega, como da outra vez, com a voz trêmula, pedindo que sejamos fortes.
Essa virada tem sido da pá virada. Só fica a lição: de onde menos se espera é que chega o apoio. Assim separamos o joio do trigo. Mas em dois mil e NOVE não vou desfiar um NOVElo de lamentações. Deixo que se reNOVEm as esperanças. E vou seguindo a minha vida de NOVEla.
postado por Manuella às 12:15 AM
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