Templates da Lua


Essa página é hospedada no Blogger. A sua não é?


Sábado, Junho 07, 2008

Eu não gosto da voz de Nana Caymmi. Acho que ela canta como se estivesse sempre com prisão de ventre (vai um Teste do Activia, aê?). Mas, ainda que não goste, é a voz dela que escuto nesse momento na minha cabeça cantando: “Batidas na porta da frente, é o tempo”. Aliás, combina o fato de eu não gostar da voz com a sensação que essa frase me traz. Puro desconforto. Aliás, o tempo tem batido insistentemente na minha porta nos últimos dias. A primeira batida veio numa notícia de jornal e me deixou abatida. Lá estava uma nota de falecimento destinada à mãe de uma garota que foi minha colega no ginásio (ginásio soa tão oldfashioned).
Ela era uma socialite sempre bem maquiada e quando íamos a casa dela fazíamos as refeições numa mesa enooooorme de uns 10 lugares e ela usava uma espécie de intercomunicador através do qual dava ordens à cozinha: “sirva o arroz”, “traga a sobremesa”. Achava tudo muito divertido, quase teatral.
Era uma figura marcante da minha adolescência e de repente estava lá na página de um jornal, não mais nas colunas sociais que estampava freqüentemente, mas nos obituários. Um frio gélido percorreu a minha espinha (cá pra nós, essa frase ficou super livro de Bianca, Sabrina e cia). Toc Toc. Era o tempo batendo na porta e dizendo: “a partir de agora pais morrendo não serão mais uma tragédia assim tão rara”. Toc Toc Toc (agora não foi o tempo, fui eu mesma, batendo na madeira, isola, pé de pato bangalô três vezes).
Dias depois, acordei, fui escovar meus dentes e quando olho no espelho, vi um brilho diferente nos meus cabelos. Voltei a fixar o olhar nas minhas frenéticas manobras com a escova de dentes e zás! A visão periférica novamente captou aquele brilho peculiar. Depois de uma investigação minuciosa, cheguei à triste conclusão de que não era o efeito benéfico das ceramidas. A verdade veio dura: um fio de cabelo branco. E o danado nasceu diferente dos outros, espetado, meio grosso, todo se exibindo. Tratei de arrancar a evidência e quem espalhar essa história eu entrego para máfia [Don Vito Corleone Mode => ON].
Para encurtar a prosa, a última trombeta do apocalipse soou quando peguei um avião para passar um final de semana em São Paulo. Na poltrona do outro lado do corredor, paralela à minha, sentou-se um ex-colega de colégio. Passados os minutos iniciais do “acho que fomos colegas”, a conversa engrenou e passamos a falar sobre os anos pós-CSP. Ele está casado, pai de três crianças e super executivo-bem-sucedido. Será que temos mesmo a mesmíssima idade? Porque me pareceu que ele tinha vivido umas duas décadas a mais que eu. Era o tempo. Nesse caso, o mesmo tempo e caminhos de vida totalmente distintos. Sabe aquela parte da teoria da relatividade que trata do "paradoxo dos gêmeos"? Aquela que diz que havendo bebês gêmeos, se um permanece na terra e outro viaja para o espaço na velocidade da luz, o que ficou envelheceria mais rápido do que o outro? Sempre me falaram que eu ando rápido demais e no mundo da lua... Deve ser isso.
Bem, o avião pousou e lá estava eu de volta a São Paulo. Só por um final de semana.
Foi muito bom reencontrar os amigos. Com direito às bugigangas da 25, pastel do mercadão, café na Harddock Lobo, jantar na casa da Dana, churrasco da Monique, Pizza na casa da Léa... Deu saudade do meu APzinho de Sampa e dos eventos que fiz nele.
Preciso logo de um APzinho soteropolitano, mas esse boom imobiliário tem jogado os preços lá no teto (e eu vou ficando por enquanto sem teto).
O mais engraçado desse reencontro com Sampa foi a sensação de que tudo passa. Quantas vezes não fiz o caminho inverso, num misto de angústia e felicidade, indo passar só o final de semana na Bahia?
As pessoas, os lugares por onde passava, tudo desenrolava um novelo de recordações.
Lembrei da primeira vez que fui na casa da Monique e recebi uma ligação 071 (ou seria 171?) tão maravilhosa no celular que fiquei na varanda conversando, conversando e mal falei com ela... A Hermínia ficou de herança da Xará. Já a Léa eu conheci num barzinho da Vila Olímpia, ela recém chegada de um passeio pela França, cheia de histórias. A Dana foi no Bar Balcão também recém chegada, mas ao Brasil, e trazia uma lista interminável de compras que ia de sofá a toalhas que tratamos de traduzir para o português. Os colegas do trabalho... Aguardar o elevador hooooooooooras até chegar ao 23º andar. Pirraçar a Nádia, a Lídia, a Simone. A Ana Paula que está ainda mais longe e não deu para matar a saudade... Teve almoço comemorativo no MASP. Tudo tão familiar, mas ao mesmo tempo a clara sensação de que não é mais meu. Não é o meu lugar. Sou visita. O tempo em São Paulo passou. Assim como a Catapora da infância, o seriado Barrados no Baile, o sorvete na geladeira... O tempo é um vampiro batendo na porta da frente. E eu não quero convidá-lo para entrar. Pensando bem, pode me fazer imortal?





postado por Manuella às 8:43 PM
|