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Quinta-feira, Julho 26, 2007

Ontem fui assistir a duas exposições que estão encerrando a temporada na OCA (Parque do Ibirapuera): Corpo Humano – Real e Fascinante e Leonardo da Vinci – A Exibição de um Gênio
Bem, confesso que a minha impressão sobre a primeira não foi das melhores. Por mais que tentasse abstrair, a toda hora soava uma sirene na minha mente: “são cadáveres”.
A morte geralmente me causa certo pavor e desconforto. Vendo ali tantos órgãos nas vitrines, tantos corpos esticados feito manequins de loja, exibindo as suas compleições físicas, foi inevitável refletir sobre a fragilidade humana. Tive de deixar a minha onipotência um pouco de lado. Impossível acreditar-me imortal diante de tantos corpos dissecados.
Contudo, inegável que o trabalho científico foi primoroso. A precisão das secções é impressionante. Pude ver ao vivo como são e imaginar como funcionam os nossos principais sistemas. Quase uma aula de anatomia. Sem contar que é incrível como a natureza se repete. Hoje vi a copa de uma árvore sem folhas e achei quase idêntica em maior escala aos alvéolos pulmonares.
Mas se por um lado a plasticidade de alguns órgãos causou em mim certo deslumbramento, por outro foi excessivamente bizarro ver, por exemplo, todo o sistema nervoso de uma criança de cinco anos. Como assim? Eu não queria lembrar dessa verdade tão brutal: crianças de cinco anos também morrem. E a realidade estava ali diante de mim, exposta numa redoma de vidro.
Ainda meio perturbada pelas imagens fortes segui para a segunda mostra. Um deleite. Em verdade não há nada de genuíno. Não vi um risco sequer traçado pelas mãos do grande Mestre. São basicamente reproduções e maquetes. Mesmo assim foi delicioso poder entrar em contato com a obra davinciana. Como pôde dominar tantas áreas do conhecimento? Um Gênio absoluto, estarrecedor.
Sem contar que fez com que me lembrasse da minha infância. Quando era pequena em Salvador havia um lugar que estava dentre os meus favoritos, o Museu da Ciência e Tecnologia. Era tudo interativo, podia mexer nos experimentos. Não era um museu estanque. Pude revisitar essa sensação ao manipular algumas das peças criadas conforme os esboços de Leonardo.
Outra coisa que adorava quando era criança e tive o prazer de reviver era brincar de infinito com espelhos nos vestiários de lojas. Pois para minha surpresa havia um “quarto dos espelhos” na exposição. Ele criou uma espécie de câmara octogonal com as paredes feitas de espelhos e que uma vez encerrados lá dentro, podemos nos ver infinitas vezes em todos os nossos ângulos. Achei o máximo! Eu dava um volta na mostra e me trancava no quarto dos espelhos. Mais uma volta e lá estava eu de novo. Estava me sentindo no tubo de um caleidoscópio. Aproveitei para transgredir as regras e tirar umas fotos lá dentro. Estava achando o máximo aquele exército de Manuellas.
Tive de me apressar pois já estava quase na hora de ir para o trabalho. Então na saída pude ler uma frase de Da Vinci que serviu para mim de ponte entre as duas exibições: “Um dia bem empregado traz um sono feliz, da mesma maneira que uma vida bem vivida traz uma morte feliz”. A certeza da visita de inopino da dama de túnica negra e foice na mão é, pois, o maior estímulo à vida. Viva!


postado por Manuella às 11:28 PM
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Domingo, Julho 22, 2007

Sexta-feira passada foi dia do amigo. Eu adoro dias especiais (das mães, dos pais, das crianças etc). Não que essas pessoas mereçam só um dia no nosso calendário. Contudo, em meio às atribulações do cotidiano, esquecemos de dizer o quanto são importantes para nós. Essas datas comemorativas têm o condão de nos fazer parar e expressar, ainda que apenas mentalmente, “hey, você é especial, obrigada por existir”.
Tive um grande amigo em Salvador cujos caminhos da vida acabaram por nos afastar naturalmente. É dele a melhor imagem que tenho sobre a importância da amizade. Aliás, adoro imagens guardadas na memória. Para mim são como retratos mentais vivos. E todos sabem que adoro fotografias e o seu poder de congelar um momento.
Pois bem, certa feita a mãe dele foi fazer uma grande cirurgia que envolvia órgãos nobres. Todas as intervenções cirúrgicas representam um risco, mas nessa, especificamente, ele era mais eloqüente. Assim, próximo da hora marcada para o procedimento, espantei-me com o meu amigo batendo à porta do meu escritório (advogava nessa época). Assustada, perguntei se ele não ia pro hospital. Ele disse que não. Questionei se ele queria falar sobre o assunto. Veio outra negativa. Foi aí então que ele me disse que tinha ido justamente para o único lugar onde ele não iria lembrar do que estava acontecendo naquele momento com a mãe dele. De fato, poucos minutos depois estávamos rindo das nossas bobagens com aquela cumplicidade que só os amigos verdadeiros possuem. O tempo voou e nos surpreendemos com o telefone tocando para avisar sobre o bem sucedido resultado da cirurgia.
Não consigo lembrar agora de prova de amizade maior do que essa. Realmente fez com que me sentisse absolutamente especial. Penso que é para isso que servem os amigos. Ao vermos o quanto são extraordinários, sentimos que devemos ter algo de mágico para atrairmos pessoas assim para o nosso lado. Em suma, são o lastro do nosso próprio valor.
Particularmente, sou muito exclusivista. Não saio distribuindo o selo dourado da minha amizade para qualquer um. Posso levar anos convivendo até bem proximamente com uma pessoa sem ainda julgá-la minha amiga. Para outros, bastam alguns poucos momentos para elevá-los ao meu mais alto panteão dos grandes amigos. Não há uma lógica. É algo que simplesmente sinto.
Vejo a amizade como um campo arado. Algumas plantações perenes já se encontram plenamente adaptadas ao solo, em franca produção. Há aquelas que são sazonais e sua importância limita-se a determinado período. As mudas mais novas requisitam um maior cuidado. Outras, ervas daninhas que são, precisam meramente ser extirpadas e não hesito em fazê-lo. Mas há sempre terra fértil pronta para receber novas sementes.
Assim, comemorei o dia 20 de julho no sofisticado restaurante Walter Mancini em meio aos novos amigos que a capital paulista me deu. Unidos num único brinde, estávamos eu, Léa, Monique, José, Dana e Luísa, a mais recente integrante da trupe. Era uma mesa multinacional, multicultural. Brasil, Bahia (não resisti ahahahha), Portugal, Eslováquia, Colômbia... Falávamos um português, misturado a inglês com um toque em espanhol. Melhor impossível, assim podemos provar que para o milagre da amizade não existem fronteiras.


postado por Manuella às 2:00 PM
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Segunda-feira, Julho 02, 2007

Sábado fui fazer trilha em Paranapiacaba, um lugarejo próximo a São Paulo, distrito do município de Santo André. Antiga vila em estilo Inglês que viveu seus momentos áureos no final do século XIX e início do século XX, quando surgiu para abrigar os funcionários da São Paulo Railway.
Lá estão ainda os trilhos que se cruzam, o relógio da estação, a maria-fumaça, muitas construções antigas... É nítida a impressão que se tem ao chegar de viagem no tempo . Tudo parece perdido no passado, ainda mais quando se faz o contraponto com a tumultuada São Paulo.
O objetivo do passeio era fazermos uma trilha até a Cachoeira Perdida. Demos então início à jornada e logo veio o primeiro susto: eu não sabia andar. Sim, falei andar, percebem? Eu que me achava dona da verdade, em meio a um mundo globalizado, com acesso a todo tipo de informação, estava ali diante de um dilema que me parecia absurdo: aprender a andar. Porque sempre achamos que sabemos tudo e, de repente, algo tão básico, tão óbvio, tão banal, que eu nem sentia mais que fazia, pareceu-me absolutamente novo. Estava ali dando os primeiros passos feito um bebê. Assim como Catarina há pouco o fez e logo Alice o fará.
É incrível como a ausência de um piso regular faz toda diferença e não estou exagerando mesmo. Eu que estou sempre andando a mil pra lá e pra cá, quase correndo, de salto alto nas calçadas da vida, de repente estava hesitando a cada passada.
Tive mesmo que reaprender a andar, ou melhor, fazer com atenção algo que eu achava que já dominava. Redescobrir a roda. Era preciso firmar um pé para então poder mudar a passada. Só quando um ponto de apoio estivesse plenamente dominado é que podia dar o passo seguinte. Isso é pura filosofia, pois na vida também é assim. Se passarmos para uma segunda etapa, sem estarmos certos da anterior, o risco de falha é enorme. Basta um tropeço e o precipício fica logo ali ao lado...
E não é só isso. É preciso ter senso de grupo, ter a humildade de pedir algumas vezes para alguém te dar a mão e assim poder seguir adiante. Porque tinha momento em que eu achava que não ia conseguir, a perna parecia que travava. Outras horas era preciso descobrir escadas imaginárias por entre as raízes das árvores. Havia um objetivo e ele justificava a caminhada.
O barulho das águas caindo indicava que a nossa meta estava por perto. Ledo engano, eram outras quedas d’água. E quantas vezes não cometemos esse equívoco, comemorando uma vitória imaginária ao soar do primeiro alarme falso?
Mas a nossa procura não foi em vão. Logo se descortinou à nossa frente a Cachoeira Escondida que tanto buscávamos. E foi um deslumbre. A névoa intensa dava um clima onírico. Parecia que estava num mundo encantado como Avalon. Ia pulando de pedrinha em pedrinha por entre as águas, quase personagem de um jogo de vídeo game à la Pitfall.
Na hora veio à mente um trecho de uma poesia minha, em que digo: “Na mata densa, dança o sonho”. Esses versos agora faziam todo sentido e pareciam que tinham sido criados para esse cenário.
Refeitos da contemplação, era preciso que nós retomássemos a caminhada. Parece que todo cansaço se concentrou na hora em que decidimos regressar. Andar tudo aquilo de novo em sentido contrário? Parecia impossível. Não havia mais uma cachoeira para avistar no fim da jornada, qual seria então o objetivo do retorno?
Muitos. De cara cito um, dividir essa história. Mas havia um ainda maior, retomar a minha vida, com direito a scarpin de bico fino e tudo! Pois sei que nela sempre vai haver algo que valha a pena descobrir.
Decidimos voltar por um novo caminho. Já na estradinha velha, após a trilha, o meu tênis escorregava como se estivesse ensaboado. Foi então que veio mais uma lição. Quanto mais eu andava cheia de pose, pisando firme, mais escorregava... O nosso guia então falou para eu ir apoiando primeiro o calcanhar e depois o resto do pé. Então respondi: “Igual a palhaço?” Ele aquiesceu. Aceitei a dica e fui andando rindo, jogando o pé e apoiando o impacto da passada no calcanhar. Percebi que às vezes quando parecemos bobos é que estamos sendo mais espertos...
Ao chegarmos à Vila fomos então comer um crepe para celebrarmos o sucesso da caminhada. As paredes formavam uma grande galeria de fotos com os nomes em baixo, como costumamos ver nos salões nobres das Cortes, das Câmaras... Em baixo pude ler: Carequinha, Arrelia, Piolim... Todos imortais do riso. Então o nosso guia se revelou, ele também era um palhaço e de alguma forma eu já conseguira perceber isso naquelas passadas desajeitadas.
Paranapiacaba mostrou-se para mim um passeio cheio de descobertas, aprendizados e revelações. Tudo em meio a trilhas e trilhos.

PS – Esse post é dedicado aos amigos que participaram da jornada, Léa, Rodrigo e Dana, bem como ao nosso guia Pedro da EcoDreams.





postado por Manuella às 11:34 PM
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