Não é fácil ser mulher. Imagino que ser homem também não seja mole (sem trocadilhos), mas é que o mundo feminino é mais cheio de detalhes e por isso muito mais complexo.
O pior dessa guerra é que lutamos sozinhas. Não há um time. Cada mulher é uma guerreira solitária que se pinta (de rímel e batom) na hora de ir para a batalha.
A tal da desunião feminina é, pois, triste verdade. Eu mesma, infelizmente, conheço de perto desde há muito esse problema. Foram tantas as vezes em que fui perseguida por psicopatas de saias que não gostavam de mim, sabe-se lá por qual motivo, e traçavam como meta de vida infernizar os meus dias...
Não pensem que é exagero. Uma dessas, num passado recente, fez o que pôde para me tirar do sério. Foi aí que uma amiga minha que também a conhecia me falou: “Você não percebe? Você é a Branca de Neve da vida dela. Ela pergunta ao espelho e ele responde: ‘teeeeeeeeem a Manuella’!”. A partir desse momento, cada vez que ela tentava me fazer tropeçar, eu me equilibrava no melhor estilo Matrix e ainda levantava mais forte e levava a melhor.
Sim, não é fácil ser mulher. Se por um lado cabe aos homens o trabalho pesado da conquista para descolar o telefone da gata, por outro, só uma mulher sabe o desespero de esperar pelo mesmo telefone que não toca. Toca na alma, juro. E o carinha, no mais das vezes, nem se toca.
Esse mundo cor de rosa, às vezes não tem nada de cor de rosa. Em alguns momentos é bem cinza ou mesmo se cor. Nenhum homem sabe como enoja e humilha, por exemplo, o assédio de um superior hierárquico. Vivi isso na faculdade com um professor ridículo e sofri calada. Uma mistura de vergonha e medo da qual não gosto nem de lembrar.
“Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”, cantava Rita Lee na abertura da TV Mulher (Xiiiiiii, acho que entreguei a idade). E cada uma de nós sabe como é duro ficar presa alguns dias do mês ao Sempre Livre, com direito a receber a visita íntima da TPM. Eu mesma choro que é uma beleza nessa fase, qualquer propaganda de margarina já me deixa comovida.
Estou te falando, não é mesmo fácil ser mulher. Mas as maiores conquistas são justo as mais difíceis. É muito mais honroso escalar o Aconcágua do que subir uma ladeira. É por isso que no Dia Internacional das mulheres quero homenagear duas guerreiras montanhistas da minha família.
A primeira delas, ainda aprendiz, é a Clara (que acabou de sair do ovo), minha mais nova sobrinha e também futura afilhada. Nascida ontem, começa agora a sua jornada por essa corrida de aventura chamada vida.
A outra homenageada é veterana e já chegou ao topo da montanha. Enfrentou diversas adversidades nessa subida, mas seguiu sempre em frente e de cabeça erguida.
Falo da minha Vó Neusa que para surpresa de todos, contrariando todas as expectativas, conseguiu voltar para casa (em home care) após longos dias de coma, UTI e sofrimento de todos.
Ela já chegou ao cume da montanha e fincou a sua bandeira. E essa bandeira é a família Coelho da qual tanto me orgulho. É por isso que Deus fez esse favor de prolongar a sua estada na Terra. Sabe como é, deu muito trabalho pra ela conquistar o pico, nada mais justo agora do que deixá-la aqui mais um tempo para desfrutar da paisagem.
Hoje é nosso dia: Clara e Neusa Coelho. Fé, meninas!
* Escrito 08.03.09

Sempre costumo dizer que minha nacionalidade é brasileira e que minha religião é a Bahia. É por isso que o meu sentimento perante o meu Estado (de espírito) é de plena devoção.
Todo dia rezo pelo Pelô e “andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”, já dizia o ex-Ministro. Mas o culto máximo dessa crença acontece quase sempre em fevereiro, quando a grande procissão vai ganhando as ruas da cidade.
O meu batizado aconteceu quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Nessa época só existia o percurso do Campo Grande e camarote era só o Oficial do Governador. Os pontos comerciais e escritórios ao longo do trajeto dos trios iam fazendo as vezes de mirantes da folia.
Até hoje não sei como se deu o supremo milagre, mas meu pai resolveu que íamos todos ver a festa do alto do emblemático Edifício Sulacap (logo o patriarca que nunca foi afeito às festas momescas). Só sei que saímos cedinho para o escritório de um amigo dele e ficamos até o dia seguinte (para garantir que a chegada e a saída seriam em segurança e livres da multidão).
Essa foi a primeira vez que eu me deparei com essa festa insana chamada Carnaval e foi paixão à primeira vista. Para aqueles olhos de criança, tudo era colorido demais, grande demais, lindo demais.
Depois desse ano, passei um tempo curtindo esse amor à distância, quase platônico. Ia aos bailinhos do Clube Bahiano de Tênis, assistia aos desfiles pela TV e uma vez vi de longe as luzes da festa do outro lado do mar, na Ilha de Itaparica.
Só quando completei 15 anos veio o meu reencontro definitivo com as ruas festivas da cidade do São Salvador, com direito a Bloco e o escambau. Era um tempo em que para se comprar a mortalha (o EVA ainda não tinha inventado o Abadá) a gente tinha que se associar ao Bloco, fazendo um cadastro com foto e tudo. Para minha felicidade, ser estudante do Colégio São Paulo era quase a garantia absoluta da aprovação no vestibular carnavalesco, mas vez ou outra a gente escutava histórias de gente que, supremo vexame, tinha tido a proposta rejeitada.
Mas como nunca fui de planejar nada, deixava mesmo a escolha quase sempre para última hora e aí era um verdadeiro drama... Não havia essas feiras do rolo no aeroclube e no Jardim Brasil e muito menos a internet. Então eu tinha de acordar cedo, ir para porta de casa para receber o jornal saído do forno, abrir os classificados, correr para o telefone e torcer para ser a primeira a ligar. “Esse bloco tal já foi vendido?” Bingo! O bilhete da felicidade estava garantido.
A gente saía numa euforia danada para buscar aquele pedaço disforme de tecido tamanho GG e o que fazer? Tesoura neles! Eu e minhas amigas (com o apoio da minha mama) fazíamos parte do seleto grupo das pioneiras na reforma de abadas e nossos modelos eram sempre os mais bonitos. A mulherada na fila do banheiro pirava com a gente. “Nossa, onde vocês fizeram isso?”. Se tivéssemos montado uma empresa, hoje estaríamos com nossos dólares nas Ilhas Cayman...
E olha que nessa época cortar o abadá era considerado um pecado mortal, sob o risco de expulsão do paraíso. Então era todo um processo... A gente tinha de imaginar o modelo de forma tal que ficasse garantido que não seria cortado o símbolo de nenhum patrocinador. Teve um ano, impagável, que saímos com o então Jeremias (hoje Jammil) e graças às nossas tesouradas ficou bem no meio da blusa o logotipo da Maggi. Resultado, para nossa desonra, fomos a avenida inteira ouvindo piadinhas do tipo: “Lá vai o bando da Galinha Azul”.
São tantas lembranças... A turma bonita do beco do Caesar, a paz de Ondina antes das mega-estruturas dos camarotes, o banheiro na base do suborno... Aliás, teve uma amiga tonta da gente, que na vez dela passar a graninha para o porteiro do Hotel, errou e entregou uma nota de R$50,00 (uma fortuna na época de recém-criado Real). Foi o xixi mais caro de nossas vidas.
Confesso que há alguns anos me rendi à comodidade dos camarotes. Se Dado Dolabella fosse ao meu programa ia sacudir a sua machadinha esbravejando que eu traí o movimento...
Não é verdade. Ainda continuo apaixonada pelo carnaval de rua da minha Boa Terra, só que agora é um amor maduro, sem os arroubos da juventude.
Foi por isso que não pulei esse ano em todos os dias da folia. Só fiz algumas passagens meteóricas nos Camarotes do Harém e Salvador 2009, mas foi o bastante para reafirmar o meu amor pelo carnaval de Salvador, com direito a momentos de alegria genuína,boas risadas e algumas histórias daquelas que a gente sempre vai lembrar com um sorriso no rosto.
Como disse lá no começo, minha religião é a Bahia. É por isso que minha profissão de fé é o carnaval, sigo o Sacerdote Durvalino e Sua Santidade Bell e meu hino de louvor começa assim: “Ahhhhhhhhhhh imagina só que loucura essa mistura. Alegria, alegria é o estado, que chamamos Bahia. De Todos os Santos, encantos e Axé, sagrado e profano, o Baiano é carnaval..”
postado por Manuella às 8:00 PM
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Eu sou do tipo que nunca poderia ter cursado medicina. Apesar de ter um DNA versado nas artes de Hipócrates, genealogia que inclui quase um avô (que teve de deixar a faculdade quando meu bisavô morreu, para assumir os negócios da família), tios, irmã e agora meu primo (parabéns Nandão, pela aprovação), euzinha aqui nunca fui afeita às vísceras e que tais.
Certa feita, ainda criança, fuçava, com meu irmão, na casa da minha Vó Nita (já alçada às nuvens), o armário de meu Tio Du, quando nos deparamos com um osso.
Nesse momento, vale um parêntese. Tio Du não é um tio qualquer desses que aperta a bochecha dos sobrinhos com força. Não mesmo. Quis a vida (que levou meus outros dois tios também para os degraus das nuvens, ainda antes de eu nascer) que ele assumisse desde cedo o encargo de ser nosso único tio. Papel que desempenhou com maestria, diga-se de passagem.
Temporão em relação a minha mãe, ainda era um acadêmico quando nós, no playground da infância, bisbilhotávamos escondidos o seu armário. E o guarda-roupa dele era um bom parque de diversões. Chiclete de pimenta? Tem sim, senhor... Caneta que dá choque? Tem sim, senhor? Um fêmur dos grandes? Cruuuuuuuuuuuzes... Pois bem, vamos retomar a história...
Lá estava aquele osso bem na minha frente. Dei um grito e meu irmão mais velho, todo metido a besta, do alto dos do seus 01 ano e 04 meses de diferença, pegou o danado entres as mãos, enquanto eu saía correndo... Ele colocou o osso no armário de volta, foi atrás de mim e com a mão espalmada pegou em minhas costas: “trisquei em você com a mão (suja) de osso”...
Claro que isso rendeu umas boas horas de choro. Nem sei como teria sido se ele tivesse encostado o próprio fragmento de esqueleto (pior que o do He-man) nas minhas costas, mas isso já serviu de sinal bem claro de que não havia em mim traço de vocação para a Medicina.
Aliás, como de médico e louco todo mundo tem um pouco. Não sou 100% desprovida de talento. Leio uma bula como ninguém (no banheiro então, quando acho uma, quebra um galho...). Vejo posologia, interações medicamentosas...Se tiver surtido efeito, sem (d)efeitos colaterais, repasso na hora a dica para amigos (pode fazer sua campanha pessoal contra auto-medicação).
Mas médica mesmo, com direito a estudo de anatomia, bioquímica e homenagem ao cadáver desconhecido (cruuuuuuuuuuuuzes parte II) eu nunca seria. E quer saber o motivo?
Nojo de sangue e demais secreções. Meio óbvio demais, não? Mas não é só isso. Os proctologistas hão de convir: o buraco (ui) é mesmo mais em baixo.
Meu problema maior, caso tivesse optado pelas ciências da saúde, seria administrar a minha hipocondria imoderada. Não posso ver uma descrição em detalhes sobre uma doença que já começo a suspeitar seriamente que carrego o mal dentro de mim.
Agora mesmo acabei de ler sobre a pesquisa de uma neurologista de Harvard cujo tema era a hipergrafia. Vamos lá:
“Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da ‘incurável doença da escrita’. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem ‘estancar’ o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias ‘editadas’ pelos lobos temporais”.
Bem, vocês acabaram de ler também, né? Então me digam, será que tenho cura?
postado por Manuella às 3:28 PM
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Há alguns dias tenho me dedicado à arqueologia digital. É que tempos atrás fui numa vidente/cartomante em São Paulo. Era uma velhinha de seus 90 anos, mas muito lúcida. Fui levando o meu MP3 Player e perguntei se podia gravar a consulta. Ela aquiesceu e fiquei com meu futuro capturado num arquivo *.wav. Não lembro de muita coisa, gostaria de ver se algo do que ela disse realmente aconteceu... Mas a curiosidade maior está em saber o que ainda está por vir. A voz trêmula da velhinha nesse arquivo sonoro equivale às minhas centúrias, meu livro perdido de Nostradamus.
Como sou muito desorganizada, há diversos CDs com backups dos muitos computadores que tive (entre Salvador - São Paulo – Salvador), espalhados em meio a outros tantos CDs de música, programas... Todos, como não poderia deixar de ser, sem a devida inscrição na frente dizendo sobre o que se trata. Olho para pilhas de discos prateados com o rótulo da Sony e nada mais.
Aí começa o trabalho dessa Cyber Indiana Jones de meia tigela. Abro o drive do computador, coloco o CD, isolo o meu sítio arqueológico e começo a vasculhar os arquivos. Vou pondo do meu lado aqueles que já vi e vou inserindo os outros. Logo faço uma confusão, vistos e não vistos se misturam e recomeço a trabalheira.
Em meio a essa busca insana, vou achando arquivos, fotos, trechos de e-mails e conversas que me remetem a momentos que vivi. É como se Amelie Poulain me entregasse a velha caixa com reminiscências do meu passado.
Sabe quando a gente sonha que odeia alguém e no outro dia acorda morrendo de raiva? Logo passa, mas enquanto duram aqueles parcos minutos, os sentimentos parecem quase tangíveis. É mais ou menos isso que acontece com a minha pesquisa digital. Enquanto vou fuçando pastas e arquivos, simpatias e antipatias vão sendo restauradas.
Vou me deparando com imagens que me remetem a lugares, fatos... Num vídeo desajeitado, lá estou eu ensaiando uma poesia no meu velho AP de Sampa. Olho a disposição das taças num cantinho da tela e por milagre as lembranças vão se arrumando, num enorme lego mental.
O mais bizarro é encontrar históricos de conversas. Já deve ter uns dois ou três anos que deixei de salvá-los nos meus computadores. Acho que o próprio nome já diz: comunicador instantâneo. É pra ser consumido na hora sob o risco de causar indigestão.
Um bate-papo que a gente tem num barzinho não fica registrado para posteridade, não é mesmo? E tomara que continue assim e no futuro não descubram uma forma de capturar as ondas sonoras que viajam eternamente por aí. É por isso que os CD em que achei esses históricos, tratei de destruir sem dó nem piedade. Não quero minhas conversas casuais salvas em arquivos binários.
Quanto à gravação da cartomante, acho que se perdeu para sempre. Tais são as coisas do mundo: revirei documentos digitais em busca do meu futuro, acabei reencontrando o meu passado.
postado por Manuella às 1:03 AM
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Estava em meio a uma aula de Processo Civil. O professor falava sobre algo que julgava muito importante (que já deve ter caído em desuso por alguma reforma legislativa) e eu estava a quilômetros dali. Havia acordado nesse dia com um texto me chamando em minha cabeça. Entre a voz monocórdia do professor e o grito das letras, preferi ficar com o segundo. Parei de transcrever a matéria, virei a página do caderno e comecei a dar vazão às idéias.
Nasceu assim uma prosa poética chamada “Toda Poesia”. Cada parágrafo veio pronto, redondo, formatado. Reli o que tinha escrito e vi que tinha criado algo realmente de qualidade. Cheguei em casa, li para algumas pessoas e obtive a aprovação de todos.
Sim, eram ouvidos parciais, estava diante da minha família, mesmo assim pude notar que estavam verdadeiramente admirados, não era mero confete.
Sentei no meu computador e entrei no site do Jornal A Tarde (jornal de maior circulação no Norte/Nordeste). Procurei o e-mail do editor do “Caderno Dois” e com um pouco de ousadia mandei o meu texto com a seguinte observação: trata-se de um trabalho de minha autoria e desde já autorizo a publicação.
Passados alguns dias, lá estava o meu texto impresso no jornal. Nessa época o vespertino trazia uma coluna chamada “Ultraleve”, destinada às crônicas. Grandes intelectuais baianos dividiam o espaço (José Augusto Bebert de Castro, Mirian Fraga, Oleone Coelho Fontes) e de repente eram as minhas palavras que saltavam do jornal. Enviei mais um texto e outra vez publicaram. Devia ter insistido e mandado outros, certamente publicariam. Mas decidi encerrar prematuramente a minha carreira de cronista.
Passados alguns anos, outra vez a faísca da ousadia literária provocou combustão em meu corpo. Ousei inscrever uma poesia minha num concurso que envolvia poesias e contos sobre a minha Bahia, sob o tema: “O que é que a Bahia tem?”. Saiu o resultado oficial e pra minha felicidade obtive o 1º lugar. A minha poesia fará parte de um livro editado com os melhores trabalhos do concurso. A coletânea será lançada durante a Bienal Internacional do Livro da Bahia e lá receberei a premiação.
Escrever é um ato extremamente solitário. Sou eu com minhas idéias, nada mais. Entretanto, não se trata de uma escolha: escrever ou não escrever. Inexiste opção. Sinto uma necessidade física de traduzir em letras os meus pensamentos. A minha escolha reside tão somente em publicar ou não publicar os meus escritos. Decidi torná-los públicos. Desde então venho buscando veículos para dar acesso às coisas que escrevo para outras pessoas.
Finalmente estarei com as minhas idéias meio desmioladas no miolo de um livro. É muito gratificante receber algum retorno, por meio de premiações e sobretudo através das palavras das pessoas que generosamente param para ler o que escrevo. E por falar em parar, quero dizer que eu não paro por aqui. Dou a minha PALAVRA.

No começo do ano eu ouvi o boato: dessa vez a turnê da Madonna engloba o Brasil. Corri para a Internet e não vinha a confirmação... Até que finalmente soube que era mesmo verdade. Se em 1994 eu era só uma aluna do Colégio São Paulo babando na TV vendo o The Girlie Show, agora teria autonomia de estar presente no show da Material Girl.
Vencida a etapa da luta pelo convite, foi só aguardar a data, arrumar as malas e zarpar para Sampa. Minha boa e velha amiga Monique me aguardava com a sua hospitalidade que, desculpa aí Madonna, deixa qualquer Grand Hyatt pra trás (valeu mais uma vez, my friend).
Cedo partimos para o Morumbi. Eu disse cedo?? Uma multidão já havia sido mais ligeira. A fila dava a vooooooooooooooooooolta no Estádio. Ainda bem que tinha a Santa Skol para ajudar. Quando conseguimos entrar, sentamos e aí veio o tédio. Ainda era meio da tarde e teríamos que esperar até as 22h para o espetáculo começar. Então veio a idéia: vamos fazer uma ôla!! Eu e Monique demos a partida e... O estádio respondeu!!! Não podíamos acreditar. Depois, quando saímos pra comprar uma cerveja, uma menina nos avistou e falou: Vocês que começaram a ola, né? Tínhamos até testemunha ocular.
Nesse momento vimos uma clareira aberta no canto perto do palco. Será que de lá dá para ver bem? Por que não tem outras pessoas? Como fazemos para entrar nesse espaço? Vencidas as dúvidas nos instalamos nesse cantinho especial.
Em pouco tempo éramos uma comunidade. Destaque para meu novo amigo Dan. Aliás, novo não, porque somos "novos amigos de infância". Brincamos muito de Barbie, Suzie, Ken. Principalmente de Ken alemão...Bee, abafa o caso!!!
No outro dia não fiz nada. A viagem foi muito corrida e nem deu para ver os meus amigos queridos, infelizmente. O retorno para a boa terra foi tumultuado pela crise aérea by GOL (contra).
Então chegou o Natal. Eu estava totalmente no clima de MamãNoella. As minhas amigas ligaram cedo marcando o pós-festa na Lotus. Estava pintando as unhas no salão de beleza, já me preparando para a Noite Feliz, quando minha irmã ligou dizendo que minha avó estava passando mal. Até então não sabia a gravidade da coisa. Veio outro telefonema, dessa vez a minha mãe me mandando ir para casa. Atrás deu para ouvir a voz da minha irmã que é médica: “ela tem que saber a gravidade do caso, com esse quadro, provavelmente minha avó vai a óbito hoje”. Perdi o chão.
Isso não podia estar acontecendo. Em pleno dia 24.12 meu pai, filho único, que sempre foi louco pelo Natal estava na iminência de perder a mãe. Peguei um táxi (não tinha perna para dirigir) e fui para o hospital.
A cena era de terror, cortava o coração ver o meu pai chorando. Ficamos todos sentados, chocados, aguardando notícias. Acabado o horário de visita na UTI, voltamos para casa e ensaiamos uma ceia, mas não havia mais clima. Falei para um amigo que não acreditaria mais em Deus se o pior acontecesse. Não aconteceu. Fui ouvida pela turma lá de cima e a velhinha reagiu.
Com essa situação, desisti de qualquer viagem de ano novo. Comprei em cima da bucha o ingresso para o reveillon da Praia do Forte. Chamei duas amigas e me mandei para o litoral norte. Foi uma delícia. Dancei pra me acabar, conheci gente nova, dourei no sol... Apesar dos pesares, o ano novo começou em alto astral. Pena que tive de voltar correndo no sábado porque o quadro da minha Vó Neusa se agravou. Não sei como vai acabar essa história. Agradeço cada dia em que o telefone não toca ou que meu irmão não chega, como da outra vez, com a voz trêmula, pedindo que sejamos fortes.
Essa virada tem sido da pá virada. Só fica a lição: de onde menos se espera é que chega o apoio. Assim separamos o joio do trigo. Mas em dois mil e NOVE não vou desfiar um NOVElo de lamentações. Deixo que se reNOVEm as esperanças. E vou seguindo a minha vida de NOVEla.
postado por Manuella às 12:15 AM
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Shoppings cheios, muita neve artificial, velhinhos aposentados aproveitando para fazer um bico de Papai Noel, as TVs mostrando os horrores da multidão na 25 de março, musiquinhas repetitivas cheias de tilintar de sinos... Começou a insanidade da fase pré-Natal! Mas nem tudo está perdido, ainda não ouvi a Simone cantando: “Então é Nataaaaaaaaaaaal e o quê você fez?”
Mas o mais impressionante é que, cinismos à parte, eu curto essa época do ano. Gosto da licença poética que ela dá para as pessoas serem bacanas. Tipo, você foi um bom filho da mãe o ano inteirinho, mas vê uma senhora trôpega equilibrando mil embrulhos e corre para ajudá-la.
Acho que no fundo, ficou no inconsciente de todo mundo aquela história de que tinha de ser um bom menino para ser atendido pelo Papai Noel. O moleque batia nos coleguinhas, tirava nota vermelha, xingava a professora, judiava da irmãzinha... Mas nos últimos minutos do segundo tempo recebia auréola, asas de anjo e virava um santo (do pau oco). Era época de escrever pro bom velhinho. Sabe como é, vai que ele mandasse os duendes darem uma fiscalizada...
Eu mesma não posso garantir que eu fui uma boa menina em 2008. Não dei passagem a inúmeros carros no trânsito, por exemplo. Armei uns dois ou três planos maquiavélicos infalíveis (que, obviamente, deram errado, maldita síndrome de Cebolinha). Fiz comentários ácidos matadores, não soube perdoar...
Mas também tive meus momentos de bondade . Aquelas situações em que a Má-nuella dava passagem e eu incorporava a Boa-nuella. Não sei se fazendo as contas, noves fora zero, o meu saldo é positivo. Por via das dúvidas, vou dar um sprint nesses metros finais da corrida sendo ultra-mega boazinha. Quase assim uma Sandy. Será que eu convenço o Papai Noel e o meu presente no sapatinho fica garantido?

Woody Allen salva. Salvou alguns dias de bobeira em Sampa e hoje me ajudou a fugir do turbilhão de um dia de pré-verão na capital da alegria. Estava tudo certo para a praia, mas não estava no clima solar e quis fugir sozinha para o escurinho do cinema. Gosto tanto disso... Eu, a sala (de preferência quase vazia – só uma única vez tive a suprema graça de tê-la 100% só para mim) e a história. A partir dum determinado momento, a sala e eu deixamos de existir e fica só a história. Hoje teria sido assim quase todo o tempo, se não fosse uma idiota mal-educada que atendeu o celular e me trouxe de volta à realidade sem escalas, justo no clímax da trama. Queria o poder de desintegrar pessoas. Enfim, voltando, lá estava na telona a voluptuosa Barcelona para as férias de Vicky e Cristina. Já que não deu para passar as minhas em terras Catalãs, pude viajar junto com elas. Fora que quando eu, finalmente, for de verdade, vai ter uma graça a mais, porque vou andar pela cidade cantarolando a musiquinha do filme... So perfect!
Sobre a trama, o velho Woody abriu mão do recorrente triângulo de suas histórias e partiu para a dança do quadrado amoroso. Aliás, quadrado não, hexágono, se contarmos o noivo traído e o colega de espanhol. Se para os homens, acredito eu, o ponto alto da trama deve se dar no fetichista romancinho entre Cristina e Elena (num threesome com Juan). So obvious. Para mim o que encantou foi descobrir-me espelhada em traços das personalidades de todas. Pela primeira vez não houve uma identificação imediata, uma torcida às escâncaras. Para minha tristeza, sou meio medrosa e controlada como a Vicky. Também sou uma buscadora insatisfeita incurável como a Cristina. Além de ser dramática feito a Elena, ainda que, se comparada a ela, o seja em doses homeopáticas. As bandeiras de louca que dei na minha vida foram fichinha junto das dela, rs.
Se por um lado, ter essa personalidade cheia de vieses encanta as pessoas. Por outro, torna-se para mim muito difícil de administrar. Por exemplo, tenho a alma mambembe. Gosto de refletores, de me expressar através da escrita, fazer trabalhos manuais, confeccionar (e encarnar) fantasias, tenho uma criatividade ilimitada... Só que profissionalmente busquei justo o caminho oposto. Sabe Deus o porquê, sinto-me fisicamente dependente da segurança de um cargo público. Em mim a Cristina, sempre em busca da sua arte, convive simultaneamente com a certinha Vicky, afeita às convenções sociais. Mas nesse ponto, sinto-me confortável com essa dualidade. Vinícius só deixou a carreira diplomática porque foi expulso. Assim, nem o Poetinha, quando, diga-se de passagem, já era ilustre e aclamado, abriu mão por livre espontânea vontade do seu cargo. Afora outros poetas barnabés de carteirinha como o Drummond. Estou bem acompanhada nesse particular...
Ainda sobre o filme, não posso deixar de mencionar los hombres. De saída, reina o garanhão absoluto: Juan Antonio. Não acho Javier Bardem propriamente bonito, mas ele vai além disso, é hipnotizante. Aqueles olhos de cachorro de papel de carta são muito sedutores (desde “O Amor nos Tempos do Cólera” já havia me rendido)... Mesmo ele tendo se envolvido com as três, o personagem dele no filme não pode ser chamado de cafajeste. Não mesmo. Ao contrário, ele joga sempre às claras, numa sinceridade desconcertante. Acho que o mundo seria mais feliz se as intenções das pessoas fossem sempre reveladas nesse grau de clarividência, ainda que num primeiro momento fosse mais duro de encarar. Mas eu também não sei se eu conseguiria dar vazão a uma história com ele. Bancaria o Leão da Montanha e... Saída pela esquerda! Conheço Manuellinha. Ôh pessoa frouxa, sô. Vive etérea voando pelo mundo da lua, mas adora saber que o chão está bem debaixo dos seus pés. Reservo-me sempre à minha condição de zagueira quando tentam me tirar a bola. Prefiro me resguardar, a correr o risco do: Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia (Nietzsche?). Mas quando chega um atacante que me vence nos dribles, agradeço em silêncio.
Os outros homens do filme fazem o gênero bem sucedidos moços de família. Sai a camisa amarrotada e suja de tinta de Juan Antonio e entram em cena as Lacostes e as Tommy Hilfigers. Homens assim, a menos que sejam genuinamente chatos, são reconfortantes como “Nescau Prontinho”. Só que no geral falta-lhes nitroglicerina.
Vejamos, o cara não pode ser um conquistador porra louca e nem também o racional workaholic. Gosto dos que trazem a centelha do inesperado. É raro, mas existe (Gracias a Dios). Fui escrevendo e me estendi demais. Confesso que a minha Vicky queria deixar o texto na segurança da pasta “Meus Documentos”. Depois de demorada deliberação, ela saiu limpando algumas partes sob a desculpa de que estava excessivamente longo. A minha Cristina tomou a tesoura de censora das mãos dela e resolveu jogá-lo na web. E a minha Elena... Bem, a minha Elena engaiolada... Olha, ela teria escrito MUITO mais!
Nunca fui especialista em realidade. Tenho um mundo muito grande dentro de mim e às vezes me sinto bem pequena diante do mundo. Acabo de retornar ao planeta dos “adultos cheios de obrigações cotidianas” e me sinto fraca. Férias só deviam acabar quando a gente era criança, porque a despedida delas vinha com dois bônus maravilhosos: material escolar novo e reencontro com os colegas.
Lembro da família toda pelos corredores da Mesbla. Cadernos novinhos em folha, apontadores, plástico para encadernar os livros, hidrocores e a cereja do bolo: a caixa de lápis com 24 cores (o rosa e o verde-água, meus preferidos, eram utilizados no decorrer do ano com parcimônia e protocolo quase religioso). Os livros eram comprados no próprio colégio num stand montado na sala de música que se transformava em livraria improvisada.
Eu pegava o material recém-adquirido e espalhava por todo o chão do quarto. E sabe o que eu fazia então? Cheirava coisa por coisa. Adorava sentir o perfume do papel novo, o plástico então, inebriava as minhas narinas, o odor adocicado da madeira dos lápis... Se eu fecho os olhos chego a senti-los outra vez...
Mochila arrumada de véspera, uniforme separado, ia dormir sonhando com o dia seguinte. Quando chegava no colégio era aquela euforia. Viajou para onde? Ganhou um cachorro? As novidades eram tantas que nem dava tempo para sentir saudade dos dias de férias.
Agora não. Não há uma troca justa. No câmbio do dia, entrego pores-do-sol e recebo uma pilha de processos e uma sala sem janelas. A preocupação já não está na alta do Dólar, nem na convulsão dos mercados, eu é que estou em crise. Preciso de uma caixa de lápis de cores de madeira perfumada para colorir meu dias.
postado por Manuella às 10:51 PM
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15 dias de férias. Já tinha imaginado o meu roteiro hollywoodiano. Se ano passado o primeiro filme da série havia sido rodado no sur del cone sur (ui), a segunda parte da saga seria gravada às margens do mediterrâneo. Vivi já está há uns bons meses em Barcelona fazendo “laboratório”. Era só eu ir encontrá-la, para juntas voltarmos a aprontar por esse mundão besta sem cerca e nem porteira. Mas o estúdio Manuella Pictures acabou de comprar a sua sede na Bahia (não sou mais homeless) e ficou descapitalizado. Sem contar a alta do dólar e a crise dos mercados... 15 dias de férias e a Manuella Pictures já estava vendo o seu projeto de longa metragem se transformar num projeto de 1 minuto. Foi aí que a sua equipe de criação resolveu transformar o blockbuster em filme independente de baixo orçamento. Saiu a locação Barcelona e entrou a Boa Terra mesmo. Mas o filme não tem perdido em diversão. Se não podemos contar com a interpretação de Vivi, entraram em cena novos atores talentosos. E esse roteiro tem de tudo: suspense, aventura, comédia, terror... Fomos passar um final de semana em Praia do Forte e acabamos as três moçoilas (Eu, Flávia e Pat) hospedadas em um Centro Espírita, pânico. A aventura de andar de Jet Ski com Iara, Adriana e Neto acabou virando comédia, o danado do jet como meio de transporte se revelou uma excelente poltrona, não andava nem com reza braba!!! Já o mocinho dessa história tem sido o Bronzeado. Ele que numa espécie de cruzamento de Don Juan com James Bond tem alisado a pele de todas as garotas. As próximas cenas serão gravadas em Morro de São Paulo. Esse filme tem tudo para ser um sucesso. Com muito Sundown vamos ganhar o Sundance. Dança sol na minha pele!!!
postado por Manuella às 10:24 AM
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No meu aniversário desse ano eu dei o bolo em todo mundo. Não que tenha sido por vontade própria. Não mesmo. Mas é que graças a um problema gástrico fui parar no hospital e quase não atendi telefonemas e tive de cancelar todas as comemorações. Foi como se a ressaca tivesse vindo antes da farra. E veio com tudo. Fiquei tonta, tive enjôos e acabei desidratando. Fui parar no soro.
Os profissionais do pronto atendimento viraram os convidados dessa festa bizarra. No lugar dos presentes, agulhadas. Três para ser exata. Eu que pensava que aniversário no leito hospitalar era coisa de octogenária, já entrei nos 32 dando o sangue mesmo.
Mas não há de ser nada. Felizmente já estou boa (nada de pronta pra outra) e aguardando as festas que não tive. Preciso também agradecer a cada uma das ligações que infelizmente não pude atender. Mas entre um sono e outro, ainda sob o efeito dos remédios, recebia feliz a lista de telefonemas que minha mãe tinha atendido. Nada como o carinho das pessoas queridas nessas horas. Um bálsamo mesmo.
Agora que venham as comemorações! O brinde não poderá ser outro: SAÚDE!

Eu não gosto da voz de Nana Caymmi. Acho que ela canta como se estivesse sempre com prisão de ventre (vai um Teste do Activia, aê?). Mas, ainda que não goste, é a voz dela que escuto nesse momento na minha cabeça cantando: “Batidas na porta da frente, é o tempo”. Aliás, combina o fato de eu não gostar da voz com a sensação que essa frase me traz. Puro desconforto. Aliás, o tempo tem batido insistentemente na minha porta nos últimos dias. A primeira batida veio numa notícia de jornal e me deixou abatida. Lá estava uma nota de falecimento destinada à mãe de uma garota que foi minha colega no ginásio (ginásio soa tão oldfashioned).
Ela era uma socialite sempre bem maquiada e quando íamos a casa dela fazíamos as refeições numa mesa enooooorme de uns 10 lugares e ela usava uma espécie de intercomunicador através do qual dava ordens à cozinha: “sirva o arroz”, “traga a sobremesa”. Achava tudo muito divertido, quase teatral.
Era uma figura marcante da minha adolescência e de repente estava lá na página de um jornal, não mais nas colunas sociais que estampava freqüentemente, mas nos obituários. Um frio gélido percorreu a minha espinha (cá pra nós, essa frase ficou super livro de Bianca, Sabrina e cia). Toc Toc. Era o tempo batendo na porta e dizendo: “a partir de agora pais morrendo não serão mais uma tragédia assim tão rara”. Toc Toc Toc (agora não foi o tempo, fui eu mesma, batendo na madeira, isola, pé de pato bangalô três vezes).
Dias depois, acordei, fui escovar meus dentes e quando olho no espelho, vi um brilho diferente nos meus cabelos. Voltei a fixar o olhar nas minhas frenéticas manobras com a escova de dentes e zás! A visão periférica novamente captou aquele brilho peculiar. Depois de uma investigação minuciosa, cheguei à triste conclusão de que não era o efeito benéfico das ceramidas. A verdade veio dura: um fio de cabelo branco. E o danado nasceu diferente dos outros, espetado, meio grosso, todo se exibindo. Tratei de arrancar a evidência e quem espalhar essa história eu entrego para máfia [Don Vito Corleone Mode => ON].
Para encurtar a prosa, a última trombeta do apocalipse soou quando peguei um avião para passar um final de semana em São Paulo. Na poltrona do outro lado do corredor, paralela à minha, sentou-se um ex-colega de colégio. Passados os minutos iniciais do “acho que fomos colegas”, a conversa engrenou e passamos a falar sobre os anos pós-CSP. Ele está casado, pai de três crianças e super executivo-bem-sucedido. Será que temos mesmo a mesmíssima idade? Porque me pareceu que ele tinha vivido umas duas décadas a mais que eu. Era o tempo. Nesse caso, o mesmo tempo e caminhos de vida totalmente distintos. Sabe aquela parte da teoria da relatividade que trata do "paradoxo dos gêmeos"? Aquela que diz que havendo bebês gêmeos, se um permanece na terra e outro viaja para o espaço na velocidade da luz, o que ficou envelheceria mais rápido do que o outro? Sempre me falaram que eu ando rápido demais e no mundo da lua... Deve ser isso.
Bem, o avião pousou e lá estava eu de volta a São Paulo. Só por um final de semana.
Foi muito bom reencontrar os amigos. Com direito às bugigangas da 25, pastel do mercadão, café na Harddock Lobo, jantar na casa da Dana, churrasco da Monique, Pizza na casa da Léa... Deu saudade do meu APzinho de Sampa e dos eventos que fiz nele.
Preciso logo de um APzinho soteropolitano, mas esse boom imobiliário tem jogado os preços lá no teto (e eu vou ficando por enquanto sem teto).
O mais engraçado desse reencontro com Sampa foi a sensação de que tudo passa. Quantas vezes não fiz o caminho inverso, num misto de angústia e felicidade, indo passar só o final de semana na Bahia?
As pessoas, os lugares por onde passava, tudo desenrolava um novelo de recordações.
Lembrei da primeira vez que fui na casa da Monique e recebi uma ligação 071 (ou seria 171?) tão maravilhosa no celular que fiquei na varanda conversando, conversando e mal falei com ela... A Hermínia ficou de herança da Xará. Já a Léa eu conheci num barzinho da Vila Olímpia, ela recém chegada de um passeio pela França, cheia de histórias. A Dana foi no Bar Balcão também recém chegada, mas ao Brasil, e trazia uma lista interminável de compras que ia de sofá a toalhas que tratamos de traduzir para o português. Os colegas do trabalho... Aguardar o elevador hooooooooooras até chegar ao 23º andar. Pirraçar a Nádia, a Lídia, a Simone. A Ana Paula que está ainda mais longe e não deu para matar a saudade... Teve almoço comemorativo no MASP. Tudo tão familiar, mas ao mesmo tempo a clara sensação de que não é mais meu. Não é o meu lugar. Sou visita. O tempo em São Paulo passou. Assim como a Catapora da infância, o seriado Barrados no Baile, o sorvete na geladeira... O tempo é um vampiro batendo na porta da frente. E eu não quero convidá-lo para entrar. Pensando bem, pode me fazer imortal?



Eu vou, eu vou, para casa agora vou... Laralá lará laralá lará, eu vou, eu vou. Catando as minhas migalhas espalhadas no caminho... Seja de doces ou de tijolos amarelos com sapatos de rubi. ET go home. Mais uma vez, nesse era uma vez, a mocinha reencontrou o seu lar, doce lar. Enfim, voltei para casa... Retornei para minha terra, planeta água. Enfrentei a selva de pedras, feito Tarzan pink Ôhhhhh ôhhhhhhhhhh ôhhhhhhhhh, e agora estou de volta à Bahia com H.
Fácil? Nem tanto, entretanto me entretenho e pouco a pouco reencontro a minha essência. A saudade é inevitável. Dos amigos, do Brownie na Bela Paulista, do samba do Traço, do chopp da Vila, mas não das filas e favelas ou da feia fumaça que sobe apagando as estrelas. Nesse meu brinquedo de Star, pelo meu bem estar, juntei mais uma vez a minha fome com a minha vontade de comer acarajé. Seja da Dinha ou da Cira, sem adiar vontades. Pois é aqui que fico mesmo à vontade. Chega mais, puxa a cadeira.
Quer saber de uma coisa? Agora que eu voltei, quero viajar sem parar. Só que a passeio, completo! Feito festa. Celebrate good times, come on! It's a celebration! Porque a Bahia é meu cartão de seguro saúde. Porto Seguro de onde eu tanto agora posso içar as velas quanto jogar a âncora. Inventando novos caminhos, temperados com cominho e sal. Salvador me salvou das cinzas. Agora todo dia é carnaval. Ainda que em pleno mês de maio, das noivas (de Copacabana, do Leblon, da Barra e do Recreio). Porque foi muito boa a hora do recreio, com os amigos nesse giro pela cidade das maravilhas. Cidade maravilhosa que é B.I.T.C.H, Beach e beat. Ouvindo as batidas eletrônicas das pick-ups, de um tamborim da Beija-Flor ou de um coração acelerado. Passei o fim de semana no Rio e agora rio ao lembrar das histórias. Mas é hora de desfazer as malas. Em casa. Na minha Bahia preta. Tchau, Rio. Tchau, Sampa. Logo volto pra fazer uma visita. Prepara um café ou quem sabe um churrasco na cobertura. E a cobertura dessas viagens vão parar aqui no blog. Sempre. Livre de todo o mal. Amém.

Estava no cabeleireiro dando aquele upgrade na auto-estima para iniciar o ano novo com o visual em dia. Aproveitei o embalo para fazer as unhas dos pés e das mãos.
Poucas coisas me deixam tão pouco a vontade num salão de beleza quanto submeter-me ao trabalho de manicure e pedicure. Claro que não é nada comparável a uma depilação, mas sempre fico meio sem saber o que fazer.
Primeiro porque a minha mão não contribui. Não tenho dedos longos e finos como os bem-aventurados pianistas. Sem contar que a minha unha parece de criança, um desastre.
Lembro com clareza a data da minha iniciação nesse ritual macabro da extirpação das cutículas. Era o dia do meu baile de debutante. Fui mandada bem cedo, sozinha, para o salão. Conduzida pelo “Seu Manoel”, motorista que trabalhava para a gente naquela época, não tive a companhia de nenhuma mulher da minha família para explicar quais seriam os procedimentos.
A manicure foi chegado com aquela porção de apetrechos. Eram alicates, potinhos com água, algodões, palitinhos, toalhas... Pediu a minha mão direita. Molhou na água, retirou, enxugou e começou a descarnar. Feito isso passou uma base e depois pintou com um esmalte bem clarinho como eu havia pedido. Então ordenou imperativa: molhe a mão. Eu prontamente enfiei meus dedos no potinho. O esmalte recém pintado enrugou todo. Ela me fitou com olhos ardentes de ódio e berrou: ERA A OUTRA MÃO!
Foi uma péssima estréia na arte dos esmaltes. Esse fato deve ter deixado algum trauma obscuro. Só sei que até hoje tremo nas bases (e nos esmaltes também) quando tenho de oferecer as minha unhas em sacrifício.
Até porque, nunca sei responder às perguntas complexas que me são feitas, tipo: “Qual a cor do esmalte que você vai usar?”. Tenho certeza de que faltei a importantíssima aula no colégio em que foi passada toda a paleta de cores da Coloroma e da Risque.
Vejo as minha amigas discutindo com uma desenvoltura: “São duas camada de Carmim com uma camada de Rebu”. Para solucionar o problema, decorei um único nome de cor de esmalte: “Paris”. Toda as vezes é sobre ele que recai a minha escolha e sempre morro de medo de que não tenha no estoque da manicure. Olho a mocinha com aquela expressão decida e falo: “Paris”. Um passo em falso e eu posso ser desmascarada como uma completa desconhecedora do assunto. Vexame absoluto.
Vencido esse stress inicial. Olho para as minhas unhas já prontas, com direito a óleo secante e tudo. Lindas, brilhantes...
Percebo que é a mesma coisa com o ano novo. Todo dia 31/12 é como se passássemos acetona e limpássemos as velhas marcas. No dia 01/01 pintamos delicadamente. Depois temos o maior cuidado nos primeiros dias para não descascar.
Só que com o passar do tempo o esmalte vai trincando. Os pedaços vão ficando por aí, ou quem sabe o pior, a unha inteira se quebra.Quando nos damos conta, já estamos loucos para passar acetona de novo e começar tudo outra vez.
Espero que o esmalte do ano de 2008 dure bastante tempo impecável. Caso haja marcas (infelizmente elas sempre existem) que sejam bem pequenas. Até que 2009 desponte e chegue a hora de repintar o ano, apenas porque a unha cresceu e não por ter se quebrado. Aí direi dessa vez realmente decidida: “Paris”. Duvido que haja nome de esmalte que combine mais com Ano Novo do que o da Cidade Luz que cunhou a palavra Réveillon.
postado por Manuella às 3:40 PM
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Salvador tem a característica de transmutar o religioso em profano. Essa foi a receita do seu extenso calendário de festas de largo que se inicia em dezembro com homenagem a Santa Bárbara e termina com o Carnaval. Aliás, é esse o ápice do culto ao mundano, com milhares de pessoas tomando as ruas numa celebração extravagante a tudo aquilo que há de mais profano.
Já para o aniversário do Salvador, falo Daquele que foi pregado na cruz, fizeram o caminho inverso. Pegaram uma festa profana e a transformaram em feriado religioso.
Assim, o Bispo de Roma pongou nos rituais pagãos que celebravam o solstício de inverno, o Yule que é o momento do nascimento do filho da Deusa, determinando que esta fosse a data de vinda ao mundo da criança prometida do catolicismo.
Na verdade, ninguém sabe a data exata de nascimento de Jesus. É por isso que eu gostaria que não houvesse um dia “formal” de Natal.
Eu sei que é bem contraditório. Eu que vivo pregando aos quatro ventos que adoro as datas comemorativas, quero de repente acabar com a principal delas para o mundo ocidental?
Calma, não é nada disso. Quem sou eu para terminar com a festa do menino Deus. A minha proposta seria outra. Já que o natal é uma data aleatória, devia ser dado a cada indivíduo o direito sagrado de escolher o seu dia de Natal. Qualquer um dentro dos 12 meses.
Ia ser muito mais legal. O ano todo ia ter alguém vivendo aquele típico estado “Jingle Bells” de graça. Não ia haver engarrafamento ou falta de estacionamento nos shoppings... Sem contar que algumas pessoas, mesmo sem saber disso, iriam comemorar o Natal precisamente no dia em que ele aconteceu.
Estava pensando com meus botões, esse ano que está acabando tive muitos dias felizes. Aposto que um deles deve ter acontecido no dia em que o menino da manjedoura estava apagando as velinhas lá no céu.
Acho que deve ter sido Natal esse ano quando meu irmão me mandou emocionado pelo celular a foto da sua pequena que acabava de surgir para a vida. Quem sabe foi Natal quando Catarina me falou pelo telefone: “Titia eu te amo, tô com saudades”. Ou então quando assisti a Miss Saigon na adorável companhia dos meus pais... Será que foi quando eu estava recitando uma poesia? Ou também pode ter sido na data em que avistei do barco Buenos Aires se aproximando...
Nunca vou saber, apenas tenho certeza de que nesses dias Deus estava sorrindo. Espero que no ano que vem haja ainda mais momentos assim para todos nós... Com Deus (menino ou homem feito) às gargalhadas.
Quanto ao dia 25 de dezembro que está chegando, confesso que vou festejar. Afinal, Jesus pode ter nascido em qualquer dia, inclusive neste. Por via das dúvidas, não vou ser eu a única a dar um bolo num dia que bem pode ser o do bolo do Criador.
Quer saber de uma coisa, feliz Natal a todos, todos os dias.
postado por Manuella às 2:04 AM
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