No dia 4/11/1983, a Seleção Brasileira jogou na saudosa Fonte Nova. Eu era uma criança de 7 anos e fui convidada para assistir no dia anterior ao treino da nossa equipe Canarinho. Era o antológico time da Copa de 82. Nessa época, a TV mostrava eletronicamente a assinatura do jogador quando ele fazia o Gol. Por isso, o autógrafo de Sócrates (que ainda tenho guardado) teve para mim um gostinho todo especial. Era igualzinho ao que eu via na televisão!
Mas especial mesmo foi ver no dia seguinte, data do jogo (04/11/83), essa foto minha estampada no Jornal A Tarde com a legenda: “A garotinha que conseguiu realizar seu sonho: um autógrafo do ‘capitão’ Sócrates.
Hoje tenho 33 anos e muita coisa mudou desde então, menos a minha torcida verde e amarela, o hábito de ler A Tarde e a certeza de que sonhos foram feitos para serem realizados.”



Mudança de hábito! Calma, não entrei num coral e MUITO MENOS num convento... Apenas tenho recebido a visita dessa tal de maturidade com uma certa freqüência ultimamente e ela tem me sugerido, fazendo a linha boa amiga, tomar um novo caminho. Desde o 2º ano de faculdade ficou claro qual seria a minha ambição profissional: a magistratura. Comecei estagiando na Justiça Federal há 12 anos e desde então essa tem sido a minha casa. Advogar não é a minha praia. Para começar, não gosto de pedir nada, ainda que para outrem...
Só que infelizmente vestir uma toga é mais difícil do que usar um biquíni da nova coleção de verão. E fui adiando o meu sonho, enebriada muitas vezes por outras atmosferas oníricas erigidas de tijolos etéreos fabricados à base de felicidades instantâneas.
A verdade é que nunca fui muito afeita aos sacrifícios. Nunca soube dizer não aos meus desejos emergenciais. Basta que eles falem comigo de uma forma mais imperativa que eu mansamente aquiesço: “Sim, amo”.
Realmente, não consigo dizer não ao sol de verão, à série preferida na TV, à balada até altas horas, à conversa fiada no MSN, ao telefonema que faz o coração disparar...
Só que na vida capitalista há aquela tal da lei do “no free lunch”... Aliás, na sinceridade, até hoje vinha conseguindo burlar muito bem essa regra, bancava a capoerista cheia de ginga e saia sempre pela tangente numa boa, afinal, como cantava o Poetinha “Capoeira que é bom não cai e se um dia ele cai, cai bem”.
Só que não dá para viver toda vida sem sacrifícios. Ou melhor, até que dá para viver, mas não tão bem quanto poderia se abrisse mão de pequenas alegrias em troca de um bem maior, ainda que futuro e incerto
Fora que me dava um certo conforto pensar: “nunca consegui, mas também nunca tentei efetivamente, né?”. Só que chegou a hora de bancar o risco e tentar. Para partir em busca do pote do tesouro além do arco-íris, terei que começar dizendo não ao computador e a TV a cabo. Se isso vai dar certo? Não sei. Como disse, é apenas uma tentativa. Também, em princípio, não será nada 100% radical. Não pretendo nazistamente me impor a vida num campo de concentração nos estudos. Tentarei escrever aqui no mínimo uma vez por mês (como parte do meu exercício de manter uma certa constância na rotina) e vez ou outra estarei conectada (espero que MUITO raramente).
Thiago de Mello fala numa poesia que está entre as minhas favoritas: “É sonhar, mas cavalgando o sonho e inventando o chão para o sonho florescer". É exatamente isso que vou arriscar fazer a partir de agora. Pode me ajudar a colocar a sela?
postado por Manuella às 10:22 PM
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No começo da década de 80 nos mudamos para o Caminho das Árvores. Era um bairro que já nascia nobre pelas mãos da Odebrecht. Foi destinado, inclusive, a ser o local da morada do famoso clã de construtores, como permanece até hoje.
O Caminho das Árvores surgiu de uma permuta entre a construtora e o Jockey Clube. O acerto foi vazado nos seguintes termos: a Odebrecht ficava com o grande terreno para criação do seu loteamento e em troca dava outra área em Lauro de Freitas para o clube, bancando a construção da sede.
Meu pai foi um entusiasta do projeto, ou melhor, dos projetos. Comprou o terreno onde foi edificada a nossa casa e, de quebra, ainda se associou ao Jockey Clube.
O primeiro foi um negócio estupendo, pois nesses anos todos, nossa casa só se valorizou. Já o segundo se mostrou uma grande roubada.
Em todo o país os Jockeys Clubes (é esse o plural?) são instituições elitistas, destinados ao crème de la crème. Só não na Bahia que como diria minha bisavó Etelvina é a Terra do Bom Começo e não a Terra do Bonfim, já que tudo principia bem e acaba mal.
Mas nos dois primeiros anos mais ou menos, o clube recém-inaugurado era um lugar aprazível e chegamos a ir algumas vezes.
Eu era bem pequena, ainda usava aquelas bóias infláveis que se prendem aos braços (com a cabeça do Mickey), mas guardo algumas imagens nítidas do lugar: um escorregador gigante (que nunca tive o tamanho certo para poder descer), a piscina infantil redonda, muitas arvores frondosas e o calçamento formando ferraduras.
A distância Lauro de Freitas – Salvador naquela época parecia uma viagem, o que tornava tudo ainda mais interessante para as crianças. Quando o passeio era anunciado, corríamos para arrumar as coisas.
Vestia a parte de baixo do meu biquini (na infância era adepta do topless), pegava meus brinquedos, a bóia, minha mãe levava água para bebermos no caminho e íamos contando os postos de gasolina da Av. Paralela: 1... 2... 3...
Quando dava certo era uma maravilha! Um programa realmente sensacional. Só que nem sempre era assim. Algumas vezes juntávamos todos os apetrechos, vestíamos a roupa de banho, sentávamos no carro e... Nada!
Meu pai durante os dias úteis usava carro oficial, então o seu automóvel mesmo só era utilizado nos finais de semana. Não foi que o danado de birra desenvolveu vida própria (não lembro se era o Corcel II, talvez meus irmãos mais velhos saibam melhor)?
Assim, arrumávamos as coisas no bagageiro, entrávamos no carro voluntarioso e o filho da mãe nem se abalava, não dava partida e a gente ouvia aquele som rouco e abafado do motor que significava o fim da diversão (bendita seja a criação da injeção eletrônica).
O Jockey ficou uma lembrança enevoada, mas não o Caminho das Árvores. Esse ainda é bem presente. Ainda que no começo desse ano tenhamos saímos oficialmente da velha (e linda) casa, continuamos fieis ao bairro.
Hoje meus pais, meus irmãos e eu somos proprietários de 04 apartamentos em prédios quase vizinhos entre si (ficam todos na mesma rua), a poucos metros da antiga moradia.
Mas tenho que confessar que na minha vida tem momentos em que volto a me sentir como aquela menina no banco de trás do veículo, cheia de bugigangas e sonhos, tudo aparentemente certo e organizado. Só que o carro, contrariando todas as expectativas, simplesmente não anda...
postado por Manuella às 8:40 PM
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Não é fácil ser mulher. Imagino que ser homem também não seja mole (sem trocadilhos), mas é que o mundo feminino é mais cheio de detalhes e por isso muito mais complexo.
O pior dessa guerra é que lutamos sozinhas. Não há um time. Cada mulher é uma guerreira solitária que se pinta (de rímel e batom) na hora de ir para a batalha.
A tal da desunião feminina é, pois, triste verdade. Eu mesma, infelizmente, conheço de perto desde há muito esse problema. Foram tantas as vezes em que fui perseguida por psicopatas de saias que não gostavam de mim, sabe-se lá por qual motivo, e traçavam como meta de vida infernizar os meus dias...
Não pensem que é exagero. Uma dessas, num passado recente, fez o que pôde para me tirar do sério. Foi aí que uma amiga minha que também a conhecia me falou: “Você não percebe? Você é a Branca de Neve da vida dela. Ela pergunta ao espelho e ele responde: ‘teeeeeeeeem a Manuella’!”. A partir desse momento, cada vez que ela tentava me fazer tropeçar, eu me equilibrava no melhor estilo Matrix e ainda levantava mais forte e levava a melhor.
Sim, não é fácil ser mulher. Se por um lado cabe aos homens o trabalho pesado da conquista para descolar o telefone da gata, por outro, só uma mulher sabe o desespero de esperar pelo mesmo telefone que não toca. Toca na alma, juro. E o carinha, no mais das vezes, nem se toca.
Esse mundo cor de rosa, às vezes não tem nada de cor de rosa. Em alguns momentos é bem cinza ou mesmo se cor. Nenhum homem sabe como enoja e humilha, por exemplo, o assédio de um superior hierárquico. Vivi isso na faculdade com um professor ridículo e sofri calada. Uma mistura de vergonha e medo da qual não gosto nem de lembrar.
“Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”, cantava Rita Lee na abertura da TV Mulher (Xiiiiiii, acho que entreguei a idade). E cada uma de nós sabe como é duro ficar presa alguns dias do mês ao Sempre Livre, com direito a receber a visita íntima da TPM. Eu mesma choro que é uma beleza nessa fase, qualquer propaganda de margarina já me deixa comovida.
Estou te falando, não é mesmo fácil ser mulher. Mas as maiores conquistas são justo as mais difíceis. É muito mais honroso escalar o Aconcágua do que subir uma ladeira. É por isso que no Dia Internacional das mulheres quero homenagear duas guerreiras montanhistas da minha família.
A primeira delas, ainda aprendiz, é a Clara (que acabou de sair do ovo), minha mais nova sobrinha e também futura afilhada. Nascida ontem, começa agora a sua jornada por essa corrida de aventura chamada vida.
A outra homenageada é veterana e já chegou ao topo da montanha. Enfrentou diversas adversidades nessa subida, mas seguiu sempre em frente e de cabeça erguida.
Falo da minha Vó Neusa que para surpresa de todos, contrariando todas as expectativas, conseguiu voltar para casa (em home care) após longos dias de coma, UTI e sofrimento de todos.
Ela já chegou ao cume da montanha e fincou a sua bandeira. E essa bandeira é a família Coelho da qual tanto me orgulho. É por isso que Deus fez esse favor de prolongar a sua estada na Terra. Sabe como é, deu muito trabalho pra ela conquistar o pico, nada mais justo agora do que deixá-la aqui mais um tempo para desfrutar da paisagem.
Hoje é nosso dia: Clara e Neusa Coelho. Fé, meninas!
* Escrito 08.03.09

Sempre costumo dizer que minha nacionalidade é brasileira e que minha religião é a Bahia. É por isso que o meu sentimento perante o meu Estado (de espírito) é de plena devoção.
Todo dia rezo pelo Pelô e “andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”, já dizia o ex-Ministro. Mas o culto máximo dessa crença acontece quase sempre em fevereiro, quando a grande procissão vai ganhando as ruas da cidade.
O meu batizado aconteceu quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Nessa época só existia o percurso do Campo Grande e camarote era só o Oficial do Governador. Os pontos comerciais e escritórios ao longo do trajeto dos trios iam fazendo as vezes de mirantes da folia.
Até hoje não sei como se deu o supremo milagre, mas meu pai resolveu que íamos todos ver a festa do alto do emblemático Edifício Sulacap (logo o patriarca que nunca foi afeito às festas momescas). Só sei que saímos cedinho para o escritório de um amigo dele e ficamos até o dia seguinte (para garantir que a chegada e a saída seriam em segurança e livres da multidão).
Essa foi a primeira vez que eu me deparei com essa festa insana chamada Carnaval e foi paixão à primeira vista. Para aqueles olhos de criança, tudo era colorido demais, grande demais, lindo demais.
Depois desse ano, passei um tempo curtindo esse amor à distância, quase platônico. Ia aos bailinhos do Clube Bahiano de Tênis, assistia aos desfiles pela TV e uma vez vi de longe as luzes da festa do outro lado do mar, na Ilha de Itaparica.
Só quando completei 15 anos veio o meu reencontro definitivo com as ruas festivas da cidade do São Salvador, com direito a Bloco e o escambau. Era um tempo em que para se comprar a mortalha (o EVA ainda não tinha inventado o Abadá) a gente tinha que se associar ao Bloco, fazendo um cadastro com foto e tudo. Para minha felicidade, ser estudante do Colégio São Paulo era quase a garantia absoluta da aprovação no vestibular carnavalesco, mas vez ou outra a gente escutava histórias de gente que, supremo vexame, tinha tido a proposta rejeitada.
Mas como nunca fui de planejar nada, deixava mesmo a escolha quase sempre para última hora e aí era um verdadeiro drama... Não havia essas feiras do rolo no aeroclube e no Jardim Brasil e muito menos a internet. Então eu tinha de acordar cedo, ir para porta de casa para receber o jornal saído do forno, abrir os classificados, correr para o telefone e torcer para ser a primeira a ligar. “Esse bloco tal já foi vendido?” Bingo! O bilhete da felicidade estava garantido.
A gente saía numa euforia danada para buscar aquele pedaço disforme de tecido tamanho GG e o que fazer? Tesoura neles! Eu e minhas amigas (com o apoio da minha mama) fazíamos parte do seleto grupo das pioneiras na reforma de abadas e nossos modelos eram sempre os mais bonitos. A mulherada na fila do banheiro pirava com a gente. “Nossa, onde vocês fizeram isso?”. Se tivéssemos montado uma empresa, hoje estaríamos com nossos dólares nas Ilhas Cayman...
E olha que nessa época cortar o abadá era considerado um pecado mortal, sob o risco de expulsão do paraíso. Então era todo um processo... A gente tinha de imaginar o modelo de forma tal que ficasse garantido que não seria cortado o símbolo de nenhum patrocinador. Teve um ano, impagável, que saímos com o então Jeremias (hoje Jammil) e graças às nossas tesouradas ficou bem no meio da blusa o logotipo da Maggi. Resultado, para nossa desonra, fomos a avenida inteira ouvindo piadinhas do tipo: “Lá vai o bando da Galinha Azul”.
São tantas lembranças... A turma bonita do beco do Caesar, a paz de Ondina antes das mega-estruturas dos camarotes, o banheiro na base do suborno... Aliás, teve uma amiga tonta da gente, que na vez dela passar a graninha para o porteiro do Hotel, errou e entregou uma nota de R$50,00 (uma fortuna na época de recém-criado Real). Foi o xixi mais caro de nossas vidas.
Confesso que há alguns anos me rendi à comodidade dos camarotes. Se Dado Dolabella fosse ao meu programa ia sacudir a sua machadinha esbravejando que eu traí o movimento...
Não é verdade. Ainda continuo apaixonada pelo carnaval de rua da minha Boa Terra, só que agora é um amor maduro, sem os arroubos da juventude.
Foi por isso que não pulei esse ano em todos os dias da folia. Só fiz algumas passagens meteóricas nos Camarotes do Harém e Salvador 2009, mas foi o bastante para reafirmar o meu amor pelo carnaval de Salvador, com direito a momentos de alegria genuína,boas risadas e algumas histórias daquelas que a gente sempre vai lembrar com um sorriso no rosto.
Como disse lá no começo, minha religião é a Bahia. É por isso que minha profissão de fé é o carnaval, sigo o Sacerdote Durvalino e Sua Santidade Bell e meu hino de louvor começa assim: “Ahhhhhhhhhhh imagina só que loucura essa mistura. Alegria, alegria é o estado, que chamamos Bahia. De Todos os Santos, encantos e Axé, sagrado e profano, o Baiano é carnaval..”
postado por Manuella às 8:00 PM
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Eu sou do tipo que nunca poderia ter cursado medicina. Apesar de ter um DNA versado nas artes de Hipócrates, genealogia que inclui quase um avô (que teve de deixar a faculdade quando meu bisavô morreu, para assumir os negócios da família), tios, irmã e agora meu primo (parabéns Nandão, pela aprovação), euzinha aqui nunca fui afeita às vísceras e que tais.
Certa feita, ainda criança, fuçava, com meu irmão, na casa da minha Vó Nita (já alçada às nuvens), o armário de meu Tio Du, quando nos deparamos com um osso.
Nesse momento, vale um parêntese. Tio Du não é um tio qualquer desses que aperta a bochecha dos sobrinhos com força. Não mesmo. Quis a vida (que levou meus outros dois tios também para os degraus das nuvens, ainda antes de eu nascer) que ele assumisse desde cedo o encargo de ser nosso único tio. Papel que desempenhou com maestria, diga-se de passagem.
Temporão em relação a minha mãe, ainda era um acadêmico quando nós, no playground da infância, bisbilhotávamos escondidos o seu armário. E o guarda-roupa dele era um bom parque de diversões. Chiclete de pimenta? Tem sim, senhor... Caneta que dá choque? Tem sim, senhor? Um fêmur dos grandes? Cruuuuuuuuuuuzes... Pois bem, vamos retomar a história...
Lá estava aquele osso bem na minha frente. Dei um grito e meu irmão mais velho, todo metido a besta, do alto dos do seus 01 ano e 04 meses de diferença, pegou o danado entres as mãos, enquanto eu saía correndo... Ele colocou o osso no armário de volta, foi atrás de mim e com a mão espalmada pegou em minhas costas: “trisquei em você com a mão (suja) de osso”...
Claro que isso rendeu umas boas horas de choro. Nem sei como teria sido se ele tivesse encostado o próprio fragmento de esqueleto (pior que o do He-man) nas minhas costas, mas isso já serviu de sinal bem claro de que não havia em mim traço de vocação para a Medicina.
Aliás, como de médico e louco todo mundo tem um pouco. Não sou 100% desprovida de talento. Leio uma bula como ninguém (no banheiro então, quando acho uma, quebra um galho...). Vejo posologia, interações medicamentosas...Se tiver surtido efeito, sem (d)efeitos colaterais, repasso na hora a dica para amigos (pode fazer sua campanha pessoal contra auto-medicação).
Mas médica mesmo, com direito a estudo de anatomia, bioquímica e homenagem ao cadáver desconhecido (cruuuuuuuuuuuuzes parte II) eu nunca seria. E quer saber o motivo?
Nojo de sangue e demais secreções. Meio óbvio demais, não? Mas não é só isso. Os proctologistas hão de convir: o buraco (ui) é mesmo mais em baixo.
Meu problema maior, caso tivesse optado pelas ciências da saúde, seria administrar a minha hipocondria imoderada. Não posso ver uma descrição em detalhes sobre uma doença que já começo a suspeitar seriamente que carrego o mal dentro de mim.
Agora mesmo acabei de ler sobre a pesquisa de uma neurologista de Harvard cujo tema era a hipergrafia. Vamos lá:
“Hipergrafia é o termo médico para descrever essa situação, conhecida há muito tempo: o poeta romano Juvenal falava, no primeiro século d.C. da ‘incurável doença da escrita’. Recentemente constatou-se que a hipergrafia é freqüentemente desencadeada pela epilepsia do lobo temporal, e que às vezes está associada à doença bipolar, na qual a mania se alterna com a depressão, sendo que os antidepressivos conseguem ‘estancar’ o fluxo verbal. O impulso para escrever parece originar-se no sistema límbico – conjunto de células cerebrais associadas à emoção – e transformado em idéias ‘editadas’ pelos lobos temporais”.
Bem, vocês acabaram de ler também, né? Então me digam, será que tenho cura?
postado por Manuella às 3:28 PM
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Há alguns dias tenho me dedicado à arqueologia digital. É que tempos atrás fui numa vidente/cartomante em São Paulo. Era uma velhinha de seus 90 anos, mas muito lúcida. Fui levando o meu MP3 Player e perguntei se podia gravar a consulta. Ela aquiesceu e fiquei com meu futuro capturado num arquivo *.wav. Não lembro de muita coisa, gostaria de ver se algo do que ela disse realmente aconteceu... Mas a curiosidade maior está em saber o que ainda está por vir. A voz trêmula da velhinha nesse arquivo sonoro equivale às minhas centúrias, meu livro perdido de Nostradamus.
Como sou muito desorganizada, há diversos CDs com backups dos muitos computadores que tive (entre Salvador - São Paulo – Salvador), espalhados em meio a outros tantos CDs de música, programas... Todos, como não poderia deixar de ser, sem a devida inscrição na frente dizendo sobre o que se trata. Olho para pilhas de discos prateados com o rótulo da Sony e nada mais.
Aí começa o trabalho dessa Cyber Indiana Jones de meia tigela. Abro o drive do computador, coloco o CD, isolo o meu sítio arqueológico e começo a vasculhar os arquivos. Vou pondo do meu lado aqueles que já vi e vou inserindo os outros. Logo faço uma confusão, vistos e não vistos se misturam e recomeço a trabalheira.
Em meio a essa busca insana, vou achando arquivos, fotos, trechos de e-mails e conversas que me remetem a momentos que vivi. É como se Amelie Poulain me entregasse a velha caixa com reminiscências do meu passado.
Sabe quando a gente sonha que odeia alguém e no outro dia acorda morrendo de raiva? Logo passa, mas enquanto duram aqueles parcos minutos, os sentimentos parecem quase tangíveis. É mais ou menos isso que acontece com a minha pesquisa digital. Enquanto vou fuçando pastas e arquivos, simpatias e antipatias vão sendo restauradas.
Vou me deparando com imagens que me remetem a lugares, fatos... Num vídeo desajeitado, lá estou eu ensaiando uma poesia no meu velho AP de Sampa. Olho a disposição das taças num cantinho da tela e por milagre as lembranças vão se arrumando, num enorme lego mental.
O mais bizarro é encontrar históricos de conversas. Já deve ter uns dois ou três anos que deixei de salvá-los nos meus computadores. Acho que o próprio nome já diz: comunicador instantâneo. É pra ser consumido na hora sob o risco de causar indigestão.
Um bate-papo que a gente tem num barzinho não fica registrado para posteridade, não é mesmo? E tomara que continue assim e no futuro não descubram uma forma de capturar as ondas sonoras que viajam eternamente por aí. É por isso que os CD em que achei esses históricos, tratei de destruir sem dó nem piedade. Não quero minhas conversas casuais salvas em arquivos binários.
Quanto à gravação da cartomante, acho que se perdeu para sempre. Tais são as coisas do mundo: revirei documentos digitais em busca do meu futuro, acabei reencontrando o meu passado.
postado por Manuella às 1:03 AM
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Estava em meio a uma aula de Processo Civil. O professor falava sobre algo que julgava muito importante (que já deve ter caído em desuso por alguma reforma legislativa) e eu estava a quilômetros dali. Havia acordado nesse dia com um texto me chamando em minha cabeça. Entre a voz monocórdia do professor e o grito das letras, preferi ficar com o segundo. Parei de transcrever a matéria, virei a página do caderno e comecei a dar vazão às idéias.
Nasceu assim uma prosa poética chamada “Toda Poesia”. Cada parágrafo veio pronto, redondo, formatado. Reli o que tinha escrito e vi que tinha criado algo realmente de qualidade. Cheguei em casa, li para algumas pessoas e obtive a aprovação de todos.
Sim, eram ouvidos parciais, estava diante da minha família, mesmo assim pude notar que estavam verdadeiramente admirados, não era mero confete.
Sentei no meu computador e entrei no site do Jornal A Tarde (jornal de maior circulação no Norte/Nordeste). Procurei o e-mail do editor do “Caderno Dois” e com um pouco de ousadia mandei o meu texto com a seguinte observação: trata-se de um trabalho de minha autoria e desde já autorizo a publicação.
Passados alguns dias, lá estava o meu texto impresso no jornal. Nessa época o vespertino trazia uma coluna chamada “Ultraleve”, destinada às crônicas. Grandes intelectuais baianos dividiam o espaço (José Augusto Bebert de Castro, Mirian Fraga, Oleone Coelho Fontes) e de repente eram as minhas palavras que saltavam do jornal. Enviei mais um texto e outra vez publicaram. Devia ter insistido e mandado outros, certamente publicariam. Mas decidi encerrar prematuramente a minha carreira de cronista.
Passados alguns anos, outra vez a faísca da ousadia literária provocou combustão em meu corpo. Ousei inscrever uma poesia minha num concurso que envolvia poesias e contos sobre a minha Bahia, sob o tema: “O que é que a Bahia tem?”. Saiu o resultado oficial e pra minha felicidade obtive o 1º lugar. A minha poesia fará parte de um livro editado com os melhores trabalhos do concurso. A coletânea será lançada durante a Bienal Internacional do Livro da Bahia e lá receberei a premiação.
Escrever é um ato extremamente solitário. Sou eu com minhas idéias, nada mais. Entretanto, não se trata de uma escolha: escrever ou não escrever. Inexiste opção. Sinto uma necessidade física de traduzir em letras os meus pensamentos. A minha escolha reside tão somente em publicar ou não publicar os meus escritos. Decidi torná-los públicos. Desde então venho buscando veículos para dar acesso às coisas que escrevo para outras pessoas.
Finalmente estarei com as minhas idéias meio desmioladas no miolo de um livro. É muito gratificante receber algum retorno, por meio de premiações e sobretudo através das palavras das pessoas que generosamente param para ler o que escrevo. E por falar em parar, quero dizer que eu não paro por aqui. Dou a minha PALAVRA.

No começo do ano eu ouvi o boato: dessa vez a turnê da Madonna engloba o Brasil. Corri para a Internet e não vinha a confirmação... Até que finalmente soube que era mesmo verdade. Se em 1994 eu era só uma aluna do Colégio São Paulo babando na TV vendo o The Girlie Show, agora teria autonomia de estar presente no show da Material Girl.
Vencida a etapa da luta pelo convite, foi só aguardar a data, arrumar as malas e zarpar para Sampa. Minha boa e velha amiga Monique me aguardava com a sua hospitalidade que, desculpa aí Madonna, deixa qualquer Grand Hyatt pra trás (valeu mais uma vez, my friend).
Cedo partimos para o Morumbi. Eu disse cedo?? Uma multidão já havia sido mais ligeira. A fila dava a vooooooooooooooooooolta no Estádio. Ainda bem que tinha a Santa Skol para ajudar. Quando conseguimos entrar, sentamos e aí veio o tédio. Ainda era meio da tarde e teríamos que esperar até as 22h para o espetáculo começar. Então veio a idéia: vamos fazer uma ôla!! Eu e Monique demos a partida e... O estádio respondeu!!! Não podíamos acreditar. Depois, quando saímos pra comprar uma cerveja, uma menina nos avistou e falou: Vocês que começaram a ola, né? Tínhamos até testemunha ocular.
Nesse momento vimos uma clareira aberta no canto perto do palco. Será que de lá dá para ver bem? Por que não tem outras pessoas? Como fazemos para entrar nesse espaço? Vencidas as dúvidas nos instalamos nesse cantinho especial.
Em pouco tempo éramos uma comunidade. Destaque para meu novo amigo Dan. Aliás, novo não, porque somos "novos amigos de infância". Brincamos muito de Barbie, Suzie, Ken. Principalmente de Ken alemão...Bee, abafa o caso!!!
No outro dia não fiz nada. A viagem foi muito corrida e nem deu para ver os meus amigos queridos, infelizmente. O retorno para a boa terra foi tumultuado pela crise aérea by GOL (contra).
Então chegou o Natal. Eu estava totalmente no clima de MamãNoella. As minhas amigas ligaram cedo marcando o pós-festa na Lotus. Estava pintando as unhas no salão de beleza, já me preparando para a Noite Feliz, quando minha irmã ligou dizendo que minha avó estava passando mal. Até então não sabia a gravidade da coisa. Veio outro telefonema, dessa vez a minha mãe me mandando ir para casa. Atrás deu para ouvir a voz da minha irmã que é médica: “ela tem que saber a gravidade do caso, com esse quadro, provavelmente minha avó vai a óbito hoje”. Perdi o chão.
Isso não podia estar acontecendo. Em pleno dia 24.12 meu pai, filho único, que sempre foi louco pelo Natal estava na iminência de perder a mãe. Peguei um táxi (não tinha perna para dirigir) e fui para o hospital.
A cena era de terror, cortava o coração ver o meu pai chorando. Ficamos todos sentados, chocados, aguardando notícias. Acabado o horário de visita na UTI, voltamos para casa e ensaiamos uma ceia, mas não havia mais clima. Falei para um amigo que não acreditaria mais em Deus se o pior acontecesse. Não aconteceu. Fui ouvida pela turma lá de cima e a velhinha reagiu.
Com essa situação, desisti de qualquer viagem de ano novo. Comprei em cima da bucha o ingresso para o reveillon da Praia do Forte. Chamei duas amigas e me mandei para o litoral norte. Foi uma delícia. Dancei pra me acabar, conheci gente nova, dourei no sol... Apesar dos pesares, o ano novo começou em alto astral. Pena que tive de voltar correndo no sábado porque o quadro da minha Vó Neusa se agravou. Não sei como vai acabar essa história. Agradeço cada dia em que o telefone não toca ou que meu irmão não chega, como da outra vez, com a voz trêmula, pedindo que sejamos fortes.
Essa virada tem sido da pá virada. Só fica a lição: de onde menos se espera é que chega o apoio. Assim separamos o joio do trigo. Mas em dois mil e NOVE não vou desfiar um NOVElo de lamentações. Deixo que se reNOVEm as esperanças. E vou seguindo a minha vida de NOVEla.
postado por Manuella às 12:15 AM
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